sexta-feira, 28 de abril de 2017

AVE MARIA!... A PRETA MÃE DO SALVADOR

por Oswaldo Faustino

(matéria publicada na revista Família Cristã, das Edições Paulinas, aqui com algumas alterações)

Será que Maria, mãe de Jesus Cristo, teria pele preta ou
mestiça, ao contrário de como artistas europeus a conceberam? 
Só o racismo é capaz de impedir esse tipo de reflexão, diante de tantas Madonas Negras, no mundo todo.


"Nossa Senhora Aparecida não é preta. Ela tem essa cor escura por causa do tempo que passou debaixo d'água, no rio Paraíba". Quantas vezes você já ouviu cristãos "fervorosos" fazendo esse tipo de afirmação? O que eles ignoram é, que milênios antes do nascimento de Jesus Cristo, até a construção do Canal de Suez, inaugurado em 1869, o Oriente Médio e a África eram ligados por uma larga faixa de terra através da qual povos se deslocavam livremente de um lado para outro, unindo naturalmente semitas e africanos de várias etnias. 
N. Sra. Einsiedeln, dos Eremitas (Suíça),

Por sinal, segundo o Novo Testamento, durante a perseguição de Herodes, visando assassinar a criança que seria o Messias prometido, Maria e sua família fugiram para o Egito, no norte da África, onde teriam convivido, como se egípcios fossem. E a população daquele país era formada por pessoas de pele preta ou amarronzada. Enfim, a única certeza que se tem é de que, vivendo na Palestina ou no Egito, Maria jamais teria origem nórdica, ou caucasiana, ou ariana, como tentam nos impingir.

Algumas das imagens célebres da Virgem Maria, tanto em pinturas quanto em esculturas, veneradas em países como a França, a Alemanha, a Rússia, a Polônia, a Suíça, a Áustria, a Espanha e Portugal, entre muitos outros, são escuras. Por essa razão, elas são chamadas de Madonas Negras. No mundo todo há mais de 500 dessas imagens, grande parte delas na Europa. Algumas se encontram em museus, mas a maioria, em capelas, catedrais ou basílicas, para onde atraem multidões de devotados peregrinos. 


Madona de Czestochowa,
originária da Polônia
Um bom número de estudiosos dedica-se à pesquisa das origens de várias das representações da mãe do Salvador. A maioria foi pintada ou esculpida nos primórdios do Cristianismo. Muitas delas foram levadas para a Europa por legiões de cruzados, ao retornarem das chamadas Guerras Santas, entre os séculos XI e XIII, com uma imensidão de troféus das batalhas pela reconquista de Jerusalém. Mesmo nos confrontos em que as Cruzadas não foram vitoriosas, os saques aos tesouros das igrejas bizantinas, catacumbas, sarcófagos e criptas, faziam parte da rotina e dos costumes daqueles que de vangloriavam de combater os "infiéis" em nome da fé cristã e que, por esse ato "heroico", recebiam indulgências papais e títulos de nobreza. 

Não se descarta também a influência mourisca do Norte da África, durante os mais de seis séculos de dominação sarracena sobre a Península Ibérica. Vários sincretismos surgiram nesse período e certamente interferiram no imaginário artístico daqueles que foram encarregados de produzir as imagens representativas de Maria. Uma majestosa rainha com traços faciais explicitamente africanos podemos reconhecer, por exemplo, na representação de Nossa Senhora do Pilar, confeccionada nos primórdios da era cristã, que se encontra em Zaragoza, na Espanha.   

N. Sra. do Pilar, em Zaragoza, Espanha, uma das mais antigas da Europa  



N. Sra. do Caminho, Hodegetria (Moscou) 
O importante é que, seja nos traços da figura da Virgem com o Menino Jesus no colo, seja nos detalhes dos trajes e demais adereços que compõem a obra, se constata uma concepção em linguagens incomuns às criações artístico-religiosas europeias. Isto confere a essas Madonas Negras, em particular, um magnetismo e até mesmo certa aura de mistério.

Arquétipos ancestrais

Respostas simplistas são dadas por aqueles que, apesar da devoção, sentem a necessidade de justificar a cor escura dessas representações: o enegrecimento pela fuligem da fumaça das velas, acesas há séculos, nos locais onde se encontram expostas; ou ainda pela umidade; a deterioração da tinta, também em consequência do tempo; escurecimento da argila ou pedra utilizada na elaboração escultura; ou ainda a qualidade da madeira. Tais “mudanças”, porém, não se verificam nos demais detalhes da pintura ou da escultura.

Pureza da cor branca, em Maria e nos anjos
As imagens produzidas na Europa, mais conhecidas, apresentam, com maior ênfase, o caráter "imaculado" da Mãe do Filho de Deus, geralmente representado pela alvura da pele, frente à escuridão caracterizada pelo que chamam de paganismo, pelo mundo profano e pela sensualidade, associados aos povos africanos e outros não europeus, que para os devotos não foram "agraciados" com pele e alma brancas.
A deusa Ártemis, de Éfeso
Já as Madonas Negras, quer em traços, quer em expressão, representam atributos de sabedoria, de fertilidade, de mistério e de poder, herdados do próprio mito da Mãe-Terra. Esse mesmo mito era atribuído, em crenças mais antigas, a deusas como Ísis, Kali, Cibele, Lilith, Diana, Ártemis, Hécate, Demeter, ou Sophia (Sabedoria) – também chamada Hockmah pelos judeus (que seria Pai e Mãe ao mesmo tempo) –, a Grande Mãe dos gnósticos, da Opus Dei, herdada pelos monges guerreiros templários.  Muitas dessas deusas foram elevadas à categoria de Magna Mater (Mãe Maior) e Mater Deum Magna (Grande Mãe de Deus), que o Cristianismo condenou ao absoluto desaparecimento para dar lugar a Maria Santíssima.

A  gênesis do Cristianismo

O teólogo Guilherme Botelho Jr.
O teólogo e historiador Guilherme Botelho Junior, membro da Pastoral Afro-Brasileira de São Paulo, nos lembra que “o Cristianismo surge na Palestina, localizada no Oriente Médio, e se expande para a África e desta para a Europa, em períodos muito próximos, após o Pentecostes, através das jornadas missionárias de apóstolos e demais discípulos de Jesus Cristo”.
Botelho ressalta que a hegemonia europeia do Cristianismo começa a se alicerçar a partir do Édito de Milão: “Através dele, em 313 d.C., Constantino institui a tolerância religiosa, privilegiando os cristãos, o que beneficiou seu desejo de acabar com a tetrarquia, tornando-se o único imperador de Roma. Juliano, o Apóstata, em 361 d.C., reabre os antigos templos dos deuses do Politeísmo, mas essa ideia morre com ele, três anos depois. Em 379 d.C., ascende ao trono Teodósio I que, em 27 de fevereiro de 380 d.C., decreta o Cristianismo como a religião oficial de todo o Império Romano.”

O teólogo explica, ainda, que nesse processo dá-se o sincretismo: “Entre o final do século V a.C. e o início do III d.C. a divindade mais venerada, em todo território pan-mediterrâneo foi Asclépio, também chamado Esculápio, o ‘deus medicinal’ do panteão greco-romano. Edificaram-se inúmeros templos a ele em todo o Império, principalmente nas grandes cidades como Roma, Alexandria e Antioquia. O mesmo ocorria com Ísis, a deusa egípcia, que reinava soberana sobre todas as demais. Mãe carinhosa, protetora do seu filho, da própria maternidade e da procriação, da natureza e da educação de sua prole. Seu poder de assimilação era tão forte que, em uma transcrição da época, ela recebeu 320 predicados e, aos poucos, se tornou a única ‘rainha do céu’ para seus devotos”.

O mito da deusa Ísis e Hórus torna-se o da Virgem Maria e Jesus
Porém, já a partir do final do século II d.C. – diz Botelho –, com a expansão, o fortalecimento do Cristianismo e sua oficialização em todo o Império Romano, os templos dedicados a Asclépio começam a dar lugar a Jesus Cristo e os de Isis, à Virgem Maria. Os cristãos desse período fundem as divindades Asclépio/Jesus. Da mesma forma o culto egípcio a Ísis, com seu filho Hórus no colo, cede à veneração a Maria Santíssima”.

Escuras e muito amadas

Seja pelo sincretismo ou pelo poder que a fé tem de nos remeter ao transcendente, sem nos limitarmos ao aparente, as Madonas Negras foram conquistando os corações dos cristãos nas mais variadas nações. Hoje se sabe que essas são imagens remanescentes que sobreviveram a uma verdadeira cruzada empreendida por monges, durante a Idade Média, empenhados de pintá-las de branco ou até mesmo de dourado para apagar suas marcas originais.
A Virgem Negra de Oropa
Milhões de peregrinos visitam durante o ano todo um Santuário erguido nos Alpes Italianos, a 1.200 metros de atitude e a 100 quilômetros de Milão, para fazer suas orações à Virgem Negra de Oropa. Reza a tradição que essa estátua chegou à Itália no século VI, levada por Santo Eusébio, que a encontrou na Palestina. 

Madonna di Loreto
Também na Itália, multidões de fiéis romeiros vão à Basílica da Santa Casa, um dos principais locais de culto Mariano do mundo católico, na província de Ancona. É onde se encontra a imagem de outra virgem negra, a Madonna di Loreto, também chamada de Madonna dei Pellegrini (dos Peregrinos). A pele escura da imagem difere bastante da concepção do famoso quadro barroco do mestre Caravavaggio, no qual se vê uma típica italiana, descalça, com uma criança nua no colo, recebendo a visita de dois peregrinos.   
N. Sra. do Bom Parto
Só na França, o número das chamadas Vierges Noires ultrapassa a casa de 300. Dessas, porém, encontram-se intactas apenas algo em torno de 150. As demais foram pintadas, ou roubadas e vendidas a colecionadores, ou ainda destruídas por fanáticos. Uma das mais belas e conservadas imagens é a Nossa Senhora do Bom Parto, também chamada a Virgem Negra de Paris, venerada antiga igreja Saint-Etienne-des-Grès, na capital francesa. Há séculos, invoca-la durante a gestação é uma tradição entre as mulheres católicas, no mundo todo.
Santa Sara Kali
Várias lendas as associam essas Madonas a Maria Madalena. Contam que, 13 anos após a crucifixão de Cristo, Madalena teria chegado, juntamente com as Marias – a mãe de Jesus e a mãe João Batista –, a um pequeno porto, no sul da França, depois denominado Saintes Maries de la Mer. Vivendo reclusa por 30 anos, numa gruta de St. Baume, ela abrigava e curava doentes. Nessa região há a maior incidências de Madonas Negras. Todo ano, em Saintes Maries de la Mer, há uma gigantesca celebração, por ciganos peregrinos, em homenagem à santa Sara Kali, que muitos consideram uma Madona Negra.
N.Sra. de Rocamadour
Dentre as encontradas em território francês está Nossa Senhora de Rocamadour, a 250 quilômetros a leste de Bordeux, local de grande peregrinação mariana, onde há outras seis capelas medievais. Naquelas rochas, com 400 metros de altura, o ermitão São Amadour teria esculpido em madeira essa Madona Negra. Também no alto das rochas, em Le Puy-en-Velay, foi construída para outra Virgem Negra a Catedral de Notre Dame de Puy. 
No mesmo país há, entre outras, há a Nossa Senhora dos Anjos, em Boulogne-sur-mer, junto ao Canal da Mancha; a Nossa Senhora do Pilar, na Catedral de Chatres; a Nossa Senhora dos Milagres, em Orléans; e a Vierge Noire da cripta da abadia de Saint-Victor, o mártir, em Marselha. A Basílica de Notre-Dame de la Daurade, cujo nome se deve ao revestimento com mosaicos num fundo de folhas de ouro, é um antigo templo pagão e, posteriormente, um mosteiro beneditino. Ela também abriga uma Virgem Negra. O mesmo ocorre em Mende, uma comuna francesa, capital do departamento de Lozère e em mais de uma centena e meia de outras localidades francesas.

Devoção e contradição
N.Sra. de Montserrat, na Catalunha
Uma das Madonas Negras mais reverenciadas, mundialmente, é a Nossa Senhora de Montserrat, de Barcelona. Feita em madeira escura, está sentada ao trono com o filho no colo, com manto de ouro, túnica e o véu também dourados. Aos seus pés Santo Inácio de Loyola depôs sua espada e se prostrou. Ali traçou as linhas gerais de seus “Exercícios Espirituais”. Como ele, também lhe prestaram devoção, entre outros, São João de Matha, São José de Calasanz, São Vicente Ferrer, São Pedro Claver.
Segundo a tradição, essa imagem, então denominada Senhora Jerusalemitana, foi levada para a Península Ibérica pelo apóstolo Pedro, nos primórdios do Cristianismo. Em 546, um monge construiu, na Catalunha, um mosteiro rudimentar para abrigá-la. Durante todo o tempo da dominação moura, ela permaneceu escondida numa caverna, de onde foi resgatada por pastores, que a chamaram de Virgem Morena, ou “La Morenata”. O papa Leão XIII declarou-a padroeira da Catalunha. 
N. Sra. de Montserrat, em Salto do Itu
Imagens de Nossa Senhora de Montserrat foram trazidas para o Brasil, no século XVI. Ergueram-se capelas, na Península de Itapagipe, em Salvador, em São Sebastião do Rio de Janeiro, na vila de São Paulo de Piratininga, no local onde, anos depois, se ergueria o Mosteiro de São Bento. Também levaram imagens para Santos e para Salto do Itu. Dessas duas cidades, do litoral e do interior paulistas, essa Nossa Senhora foi declarada padroeira. Seu dia, 8 de setembro, é feriado municipal e bastante festejado.  O curioso é que, essas imagens são de uma rainha branca com seu filho loirinho. Por que será que no Brasil a representação da mesma virgem da Catalunha mudou de cor?

Marias negras nas Américas 

A Virgem da Candelária, da Colômbia 
Além da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, tão reverenciada, cuja “negritude” ainda hoje causa muita polêmica e explicações diversas, há outras virgens escuras no Continente Americano, cuja devoção foi trazida da Europa. A Colômbia, por exemplo, recebeu da Espanha a Virgem da Candelária. E a Costa Rica, Nuestra Señora de los Angeles, que os devotos, chamam “La Negrita” – dizem que é um forma de carinho – , cuja basílica, em Cartago, atrai peregrinos o ano todo.
O mesmo ocorre, na Cidade do México, com Nossa Senhora de Guadalupe, uma Virgem que não chega a ser negra, mas que também não é caucasiana. Tem traços indígenas, nos quais estudiosos encontram referências à deusa egípcia Ísis, levando a crer que teria sido uma das imagens que resultaram do sincretismo, nas primeiras décadas do Cristianismo.
A Madona Negra Czestochowa ou
a deusa Erzulie Dantor, do Haiti?
Colonos poloneses levaram a Madona Negra de Czestochowa, em pintura, para todos os países em que foram viver, entre eles o Haiti, onde o Vodu era a religião oficial dos habitantes negros. Estes a sincretizaram com sua deusa Erzulie Dantor. Quadro semelhante chegou ao estado norte-americano do Missouri, onde o missionário franciscano polonês Bronislau ergueu um santuário e construiu uma gruta em devoção a ela, no sudoeste de Eureka, em 1938. Por várias vezes o santuário foi vandalizado. Ao completar 20 anos, seu altar foi atacado por um incendiário e o fogo se alastrou para a igreja toda. A devoção, porém, fez com que fosse reconstruído e recebeu, em doação da Polônia, uma nova pintura da Madona Negra de Czestochowa.

Esteja onde estiver e tenha a cor que tiver, Maria sempre será a rainha dos cristãos, devotados ao Catolicismo, em especial os que professam o chamado Marianismo. Diante de suas imagens jamais lhes faltará a disposição de dobrar os joelhos para venerá-la com sua oração universal que, em latim, ganha ares das mais belas canções: "Ave Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus..."

sábado, 22 de abril de 2017

O ESPELHO MÁGICO

                                                        por Oswaldo Faustino


(Este conto integra a palestra intitulada "REFLEXÕES DIANTE DE UM ESPELHO SEM REFLEXO") 


Quem não se vê não se reconhece. 
Quem não se reconhece não se identifica. 
Quem não se identifica não se ama
tem baixa autoestima e se desinteressa 
tanto por si próprio quanto pelo outro. 
E ainda querem impor-lhe 
conceitos de cidadania...

Não. Ele não estava lá. Olhava que olhava, procurava que procurava, mas ele não conseguia ver sua imagem refletida na superfície daquele espelho. A sala estava lá, a mesa, a janela ao fundo, tudo, menos ele...
Caramba! Será que ele não existia? Existia, sim. Mas, pasme, aquele era um menino invisível.
Você sabe o que é uma criança descobrir-se invisível? Não. A gente pode imaginar, pode ter uma vaga idéia. Mas saber, saber mesmo, só sabe quem é invisível. A dor da invisibilidade só sente quem é acometido por ela. E aquele menino era invisível.
Claro que ele não era invisível para todos. A mãe conseguia vê-lo, amá-lo, compreendê-lo, e era para ela que ele sempre corria: “Mãe, eu quero me ver. Eu quero ser visto.” E ela, sempre generosa, dizia: “Calma, meu filho! Talvez isso seja porque você ainda é... ninguém. Mas um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo, amá-lo como eu”.
E o menino ficou matutando sobre aquelas palavras: “Um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo, amá-lo...”.
E o que fazer para ser alguém? A própria mãe, que acreditava ter todas as respostas, disse-lhe o que ela imaginava ser a solução: “Para ser alguém você precisa estudar”.
Mãe, então me põe na escola para eu ser alguém! Afinal, quem é ninguém jamais poderá se ver refletido no espelho”.
E lá foi o menino para o seu primeiro dia de aula e... Não. Ele não se via refletido no espelho escolar. Ele não estava lá também. Em nenhum espelho. Não estava no livro de Matemática. O livro de História não contava a sua história. O de língua pátria não falava a sua língua.
Nem a professora o enxergava. Ela beijava algumas crianças, acariciava, dava atenção, aplaudia suas respostas, caprichava na nota. Mas ele, não. Não estava lá.
O tempo passou. E, no mesmo dia em que se tornou adolescente, como num passe de mágica, ele deixou de ser invisível e se tornou... suspeito. Suspeito crônico. Suspeito de todos os males que acometiam a comunidade em que vivia. De todos os males da sociedade.  
E, no Brasil, se você é suspeito, já é culpado. Se não culpado do que suspeitam, culpado por terem suspeitado de você. E, finalmente, ele se tornou visível, na primeira página do noticiário policial.

Mas essa história não termina aí. Seria triste demais...
Aquele menino tinha uma irmãzinha caçula, tão invisível quanto ele. E, como ainda era criança, ela acreditava na existência de um velhinho que trazia presentes no dia de Natal. As outras crianças o chamavam de Papai Noel. Como a mãe, para ela, era Iyá e o pai, Baba, resolveu chamar o velhinho de Baba Noel. E, como as demais crianças, ela também escreveu uma cartinha para ele.
E Baba Noel começou a ler as cartinhas recebidas. Uma pedia boneca, outro queria bola, outras, bicicleta, celular computador, vídeo game... Foi aí que ele abriu aquela carta com um pedido estranho: “Para que eu possa me ver, me reconhecer, me identificar, eu quero um espelho mágico”.
Só então Noel se deu conta de que não era a primeira carta que ele recebia com esse pedido. Havia outras, que ficaram esquecidas no fundo do baú de correspondências. Eram dezenas, centenas, milhares. Caramba! Como arranjar espelhos para atender a tantos pedidos?
Pela primeira vez ele se sentiu incapaz. Decepcionar criança é o que jamais gostaria de fazer. Por isso chorou. Chorou muito, intensamente. Suas lágrimas escorreram para fora da casa e se misturaram às lágrimas de todas as crianças invisíveis de todo o mundo, por todos os tempos, formando uma grande lagoa. O frio polar a congelou e o frio de muitos corações humanos se encarregou de cristalizá-la.
Foi aí que passou por ali, em trenós, uma caravana de peregrinos. Eles avistaram o imenso cristal e, com muito esforço, o arrancaram do solo e o levaram para sua aldeia distante. Seus magos artesãos lapidaram aquele cristal, durante anos, e o transformaram num gigantesco espelho mágico que trazia em seu reflexo todas as nossas personalidades, nossas culturas, nossas tradições, nossas realizações. Lá estão nossos ancestrais, nossa forma de ser e de pensar o mundo. Esse, sim, é o nosso espelho.
No dia em que o espelho mágico ficou pronto, todas as crianças, antes invisíveis, puderam ver seu reflexo e refletir sobre elas próprias, sua gente, sua cultura, sua história. Aí, descobriram que são belas, belíssimas, ricas, poderosas, não ficam a dever nada a todas as demais crianças do planeta.
Olha só a maravilha de sorriso que esse espelho revelou! E não é para menos, sobre a cabeça de cada uma delas há uma coroa, uma mais linda que a outra. Sabe o porquê? São verdadeiros reis e rainhas, legítimos herdeiros de civilizações gloriosas. E o melhor ainda é que as crianças, que antes eram as únicas visíveis, ao se olharem também no mesmo espelho, conseguem ver a si e às demais igualmente lindas. E passam a amá-las e a conviver com elas em total harmonia.


Àquelas pessoas que receberam a missão de educá-las cabe apenas o privilégio de polir essas cabeças coroadas, fazendo com que brilhem cada vez mais, mais e mais. Deixem todo o restante por conta delas!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O GIGANTESCO RUGIDO DA LEOA

por Oswaldo Faustino

A história oficial não tem melindres em heroificar figuras cruéis e sanguinárias, com tanto que sejam homens e brancos. Raros heróis são negros.
Mulheres negras, então...


O que sabemos a respeito de Dandara, de Acotirene, de Aqualtune e de tantas outras mulheres que resistiram, bravamente, ao longo de cerca de um século, no Quilombo de Palmares? Quem foram Luiza Mahin, Tereza de Benguela, Maria Soldado e outras heroínas que enfrentaram, ombro a ombro com seus companheiros e companheiras, a opressão, a exploração, os desmandos dos poderosos e cujos nomes e protagonismo ou não ficaram registrados no mármore da história ou são sub-valorizados? No máximo, são mencionadas como coadjuvantes. A historiografia prefere tratá-las, muitas vezes, como lendas improváveis, fruto da imaginação e da oralidade popular.


A Etiópia é um país que perdeu suas saídas para o mar
Hoje, vamos viajar a um país chamado Etiópia, que fica na região oriental do Continente Africano. Exceto os falashas, que são judeus, descentes de Menelik I, o filho do Rei Salomão com Makeda, a Rainha de Sabá, a maior parte da população é cristã, da linha ortodoxa. O Cristianismo é a religião oficial desde 325 D.C., só antecedida pela Armênia, no leste europeu, cristã a partir de 301 D.C.. Em Roma, a sede do Catolicismo, essa religião só foi oficializada em 380 D.C.. Pensar o Cristianismo como nascido na Europa é um grande engano e a desculpa para invadir a África, alegando ir civiliza-la e cristianizá-la, não passa de uma enorme mentira para disfarçar os objetivos reais: dominação, exploração de riquezas e escravização.    
Mas, voltando ao tema deste artigo – nossas heroínas –, mais ou menos no centro da Etiópia, encontraremos a capital, Adis Abeba. Lá chegando, perguntaremos a uma criança, em seus primeiros anos escolares: “Você conhece Taitu Bitul?”. E veremos como os olhos dela brilharão de orgulho. O curioso é que, se estivéssemos em Kingston, capital da Jamaica, no mar do Caribe, América Central, a reação da criança, provavelmente, seria muito parecida. Não será coincidência. Por conta do Ras Tafari, boa parte dos jamaicanos têm a Etiópia como referência. Mas, e você? Já ouviu esse nome: Taitu? 
Aí vêm os italianos!
Menelik II se torna negus e quer negociar 
Ao receber a Etiópia de presente, na Conferência de Berlim (1884/1885), que retalhou o Continente Africano e o repartiu entre as potências europeias, a Itália não fazia ideia da montanha rochosa coberta de espinheiros, precipícios e armadilhas que iria encontrar. Exibindo força e poderio bélico, o exército italiano teve de enfrentar a bravura da resistência etíope e só obteve poucas chances de uma aparente vitória. Numa batalha em 1889, o negus [1] Johannes IV foi assassinado. Para sucede-lo, os anciões do Conselho escolheram, entre vários rases [2], Sahle Marim, ras do Choa, que foi entronizado, em novembro do mesmo ano, com o nome de Menelik II. Ele não havia participado dos combates e se manifestou disposto a um convívio pacífico com os italianos.
Por conta disso, os invasores trocaram a violência pela diplomacia. Iniciaram-se negociações e com elas os engôdos, como o de textos dos acordos entre as duas partes, na versão em italiano dizerem coisas diferentes do que estava escrito em amárico [3], língua local. Desta forma, sem que Menelik soubesse, tudo o que seu país negociasse com outros, teria de passar pela intermediação da Itália e uma grande área da Etiópia foi transformada em colônia italiana, separando o restante do país do Golfo de Aden, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Essa colônia recebeu nome de Eritreia.

Cara de anjo, olhos de águia
A imperatriz "Luz da Etiópia"
Foi quando surgiu no cenário, a bela Taitu Bitul que, apesar da pouca idade, já passara por quatro casamentos. Trazia no sangue um DNA semelhante ao de Makeda, a famosa Rainha de Sabá, da Abissínia – antigo nome daquela região –. O rei hebreu Salomão se apaixonou loucamente por Makeda e escreveu o livro bíblico "Cântico dos Cânticos", em homenagem a ela, durante a viagem dessa rainha a Jerusalém, quase 30 séculos antes. Menelik II também vinha de alguns casamentos frustrados, como Taitu. Ao conhece-la, reagiu com paixão semelhante à que ficou documentada na Bíblia, por Salomão. Com a união do casal, a jovem se tornou imperatriz, recebendo o título de "Luz da Etiópia". Se encarregou da construção de Adis Abeba  "Nova Flor", em amárico no local escolhido por ela, cidade que se tornou a capital. 
Taitu: capa de jornal em Paris
Demostrando ao pacífico Menelik II o quanto o estavam enganando, Taitu o convenceu de que, se continuassem as negociações, em pouco tempo todo o seu país se juntaria aos demais africanos que se tornaram colônias da Europa, campos de exploração e de escravização. Ela não tinha medo de ser impopular e era quem tomava as decisões mais duras. O marido tentava sempre “colocar panos quentes”, fosse qual fosse o conflito.
Porém, orientado por ela, Menelik decide ir à guerra e juntamente com a maioria dos rases, forma um exército com 100 mil combatentes, dentre os quais 25 mil mulheres. A própria Taitu segue para o front comandando uma legião de 5 mil homens e mulheres, responsável por ações estratégicas, cercando os inimigos em número muito inferior – 9 mil italianos e 11 mil eritreus –. A Itália concentrava toda a sua esperança em seu poderia bélico e na longa e vitoriosa experiência de comando do General Orestes Baratieri.

No front, Menelik, Taitu e alguns rases no comando do exército etíope
Metade do exército etíope se valia de rifles, metralhadoras e canhões, fornecidos pela Russia, pela França e outros países que apoiavam sua resistência, apesar de eles próprios terem colônias no Continente. O restante fazia uso de armas tradicionais, como lanças, escudos, espadas, arcos e flechas. Acima de tudo, do fortíssimo espírito de luta. O comando geral era dividido entre o próprio negus Menelik II com a imperatriz Taitu. Ambos não viviam aquartelados. Mantinham-se no front, onde eram auxiliados pelos rases de cada região, que comandavam seus  exércitos regionais.
O General Orestes Baratieri

O marketing X a realidade

A Itália tinha certeza de que era impossível à Etiópia resistir, por muito tempo, a seus planos imperialistas. Essa ideia era amparada exatamente no racismo, uma vez que, desde a Antiguidade, na Europa, "etíope" era sinônimo de "pessoa preta". Para a imprensa internacional da época, o comando italiano e seu governo faziam questão de demonstrar menosprezo pelo inimigo: "Menelik é fraco, inseguro e está nas mãos de sua esposa. Todo mundo está cansado e sua renúncia é esperada. [...] A opinião pública está pronta para a queda de Menelik. Ao primeiro golpe esse império desmorona", declarou o comandante Baratieri juntamente com primeiro-ministro da Itália, Francesco Grispi. 
Batalha de Adwa: a definitiva vitória dos etíopes humilhou a Itália  
Foi na planície de Adwa, que Orestes Baratieri encontrou seu Waterloo. Os mapas tinham vários erros, as comunicações falharam e as ordens do general foram mal-entendidas. Resultado: 7 mil italianos e eritreus mortos, 1,5 mil feridos e 3 mil prisioneiros. Entre os etíopes, o número de mortos e feridos também foi grande – 6 mil e 8 mil, respectivamente –, mas como esse exército tinha quase o sêxtuplo do inimigo, pode-se dizer que a baixa não os abalou. Em primeiro de março de 1896 os italianos foram humilhantemente expulsos e Francesco Crispi, renunciou.

Foi primeira vitória militar de uma nação africana sobre o colonizador europeu e a Etiópia se manteve livre e independente. Menelik e Taitu demoraram quase dois meses para conseguir realizar seu retorno triunfal a Adis Abeba, pois por onde passavam eram recebidos com festas que duravam dias.


Depois do primeiro avc de Menelik, Taitu assume o poder 
Em 1904, Menelik II completou 60 anos e sofreu o primeiro acidente vascular cerebral (avc), de uma série que se seguiu. Esse foi o mais fraco, mas ele perdeu a fala. O demais foram cada vez mais graves e, além de deixarem muitas sequelas, o levaram ao total desequilíbrio mental. A imperatriz Taitu Bitul assumiu o poder e governou o país por seis anos, para desencantos de vários rases. Eles organizaram complôs para depô-la, o que conseguiram em 1910. Menelik faleceu em dezembro de 1913 e a imperatriz, cinco anos depois. Ela entrou para a história como a mulher mais poderosa e admirada que a Etiópia conheceu, depois apenas da insuperável Rainha de Sabá.

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[1] Negus era o título maior de poder na Etiópia, equivalente a "rei dos reis";

[2] Ras - cujo plural é rases -, título de nobreza amárico, dados aos reis regionais (feudais) que se submetiam ao poder do Negus;
   
[3] Amárico, língua de origem semita, falada em toda a Etiópia. Não confundir com aramaico, outra língua semita falada na região do Oriente Médio. 

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Em tempo: Eu escolhi  TAITU para denominar uma personagem adolescente de meu próximo livro, a ser lançado, Ah! Se eu pudesse voar...”.  Nascida na Eritréia, país desmembrado da Etiópia, a garota orgulha-se demais por ter esse nome.  Como canta Nei Lopes, sobre seu ancestral, em sua composição Maracatu de Meu Avô, a jovem também quer cantar: "Taitu não foi qualquer uma..."