terça-feira, 3 de setembro de 2019

“... e todos sabem como se tratam os pretos...”


Mais do que um verso da canção “Haiti”, de Caetano Veloso, há um consenso mundial sobre esse “tratamento”. Basta um ligeiro olhar para o Continente Africano para entendermos, até mesmo, as raízes do genocídio da juventude negra, em nosso País.



Imagina a pompa da chegada ao palácio do “chanceler de ferro” do Império Alemão, Otto von Bismarck, dos imponentes chefes de Estado dos países europeus, naquele 15 de novembro de 1884, para darem início à Conferência de Berlim. A cada carruagem que parava à porta do palácio, ouvia-se o anúncio de seu nobre ocupante vindo da Áustria-Hungria, da Bélgica, da Dinamarca, da Espanha, da França, da Grã-Bretanha, da Itália, da Noruega, dos Países Baixos, de Portugal, da Rússia, da Suécia, do Império Otomano e dos Estados Unidos da América do Norte. Nos dias que se seguiram, seria decidido o destino da África e dos povos que lá viviam.


O antigo Império do Congo foi repartido
entre Bélgica, França e Portugal 
Oito anos antes, em 1876, na Bélgica, por iniciativa do rei Leopoldo II, aconteceu a Conferência Geográfica de Bruxelas. Com a desculpa da "necessidade de se traçar rotas comerciais na África, elaborar a pacificação de chefes tribais -- como eles chamavam os imperadores, reis e chefes de Estados africanos, bastante prósperos -- e abolir a escravatura", o que essa conferência menor, na verdade, fez foi dividir em três partes territórios o antigo Império do Congo, no Sudoeste africano. Leopoldo II, o rei Bélgica, se tornou proprietário pessoal dos 2.345.000 km² que constituiu o chamado Congo Belga – o Congo Léopoldville –. Coube à França, uma área de 342.000 km², chamada Congo Francês – Congo-Brazzaville –. E Portugal oficializou sua propriedade sobre a região de Angola.

Oficialmente, a Conferência de Berlim, que terminou em 26 de fevereiro de 1885, iria apenas regulamentar o comércio naquela região já dividida e gerar assinaturas de tratados entre as nações participantes. Porém, aproveitando que ali se encontravam as maiores potências da Europa, estabeleceu-se a posse de todos os demais territórios ao longo dos 30.370.000 km² do Continente Africano e se oficializaram regras internacionais de colonização.

A história oficial, a dos vencedores, fala na necessidade de levar a civilização aos “selvagens” africanos e a Igreja Católica, em levar o Cristianismo para salvar aquelas almas. Uma e outra, porém, não conseguem esconder o objetivo principal que era a exploração das riquezas naturais e a escravização de seus povos. Nem mesmo se deram conta de que, era improvável essa “selvageria”, se já no século XII, 300 anos antes da chegada do primeiro europeu àquele Continente, já existia no Império do Mali três universidades: a de Tombuktu, ou Timbuktu (Sankoré), a Goe e a de Djenné.

A VORACIDADE NA PARTILHA

Otto von Bismarck lidera a Partilha da África
Sede da Conferência, a Alemanha, recém unificada e vitoriosa na guerra travada entre o Império Francês e o Reino da Prússia e, até então, sem nenhum território na África, escolheu, de cara, uma boa área para transformar em seu protetorado: O Sudoeste Africano – atual Namíbia –, Camarões, Tanganica e a região denominada Togolândia, que incluía a “Costa dos Escravos”, densamente populosa, abrangendo Togo, Benin e Nigéria. Portugal garantiu pra si as áreas gigantes de Angola e Moçambique, de olho na Guiné, e nas ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. O Império Otomano – Império Turco –, que estendia seu comércio e influências por várias regiões africanas, se contentou com a maior parte do Norte do continente, que simplesmente incluía o Egito e o Sudão.
A Inglaterra abocanhou a África Astral, ou Meridional, que inclui grande parte da costa do Oceano Índico até a África do Sul, que mais tarde disputou com a Holanda. A Espanha transformou o Marrocos em seu protetorado e açambarcou o Saara Ocidental, então, região das maiores jazidas de ouro, além de várias ilhas da costa atlântica.  A Itália pleiteou parte do Norte e a Etiópia. O resultado final gerou os 53 países hoje existentes no continente. 
Enfim, todo mundo garantiu sua fatia, sem se preocupar com os limites territoriais dos antigos impérios, estados e civilizações africanas. Etnias, muitas das quais secularmente em conflito entre si, foram obrigadas a compartilhar um mesmo território.
Os EUA participaram da Conferência apenas para garantir que nenhuma das potências europeias se apossasse da Libéria, território de 111. 369 km2 adquirido pela Sociedade Americana de Colonização, em1816, para realocação de ex-escravizados libertos e que havia se tornado independente em 1847.    

DA SEDUÇÃO AO MASSACRE

O Império do Congo, fundado no século XIII, por Ntinu Weene, posteriormente partilhado na Conferência de Bruxelas, era um reino bastante próspero e extenso no Sudoeste africano, e se estendia por uma vasta região que ia da costa atlântica até o Rio Cuango, no Leste. Ao Norte, pegava grande parte do atual Gabão e se estendia, ao Sul, até o Rio Cuanza, no Noroeste da atual Angola.
O Manicongo Nzinga-a-Nkuwu 
se converteu-se ao Cristianismo
e adotou o nome de D.João I

Seu líder maior tinha o título de Manicongo – Mwenekongo, em quimbundo, a língua local – e os líderes regionais de reinos, como Ndongo, Matamba, Cassenge e Quissama eram chamados de Mwenes. Uma das mais famosas Mwenes, que reinou em Matamba e depois também no Ndongo, foi Nzinga Mbande Cakombe, também conhecida como Ngola Nzinga Mbande, a Rainha Njinga, cantada até hoje em manifestações populares no nordeste brasileiro, como Rainha Ginga.

A diplomacia e a Fé cristã foram as armas utilizadas pelos portugueses ao chegarem àquele império em 1483. E foram tão sedutores que o Manicongo da época, Nzinga-a-Nkuwu, em 1509, converteu-se e transformou o Cristianismo na religião oficial do império, além de adotar o nome de D. João I do Congo. E a capital do império, até então M'Banza Kongo passou a se chamar São Salvador. A famosa Ngola Nzinga Mbande, de Matamba, também se converteu e adotou o nome de Dona Ana de Sousa. Foi a partir dessa sedução que se iniciou a colonização portuguesa naquele território africano e que resultou na maior extração e exportação de riquezas e de escravizados daquele continente.
Leopoldo II, o facínora

O sanguinário rei Leopoldo II da Bélgica, porém, não se deu ao trabalho de pensar em diplomacia, nem na conversão religiosa. Sua avidez era tamanha que se negou a fazer da parte do Congo conquistada na Conferência de Bruxelas, uma colônia belga. Todo aquele território era uma propriedade pessoal sua e foi explorada com requintes de crueldade e punições severas, sendo as mais brandas as mutilações, facilmente se estendendo às execuções em massa, principalmente após a Conferência de Berlim.

Cogita-se que tenha chegado a 15 milhões de pessoas dizimadas, pelas execuções, pela fome, por trabalhos forçados e até por doenças inoculadas na população congolesa. Amputar a mão de pessoas que não cumprissem sua cota diária de coleta da borracha para ser vendida no mercado internacional se tornou pratica corriqueira de soldados belgas, legitimados pelo rei, que fazia questão de controlar quantas mãos cada militar havia amputado para saber se suas ordens eram cumpridas.

Para justificar tamanha crueldade e barbárie, Leopoldo II concedeu uma entrevista ao jornal Publisher’s Press, de New Yok, publicada em 11 de dezembro de 1906, em que afirmou:  “Quando se trata de uma raça composta por canibais, há milhares de anos, é necessário utilizar métodos que acabarão com sua preguiça e o farão compreender o aspecto saudável do trabalho”.
Não foi por acaso que o povo de Katanga, a região das minas de diamante, recebeu do governo belga forte armamento, após a independência do Congo, em 1959, para lutar contra o novo governo, que teve como primeiro ministro Patrice Lumumba. Uma guerra civil fomentada pela antiga metrópole, uma vez que a independência contou com apoio da Rússia, em plena Guerra Fria. Lumumba foi executado diante dos Boinas Azuis, da Força e Paz da ONU que nada fizeram para impedir esse crime de interesse do crudelíssimo e genocida rei belga.


LABORATÓRIO DO HOLOCAUSTO


Guilherme II,
imperador
alemão
Quando queremos associar Alemanha com crueldade, geralmente citamos Adolf Hitler e o povo judeu. Porém é importante lembrarmo-nos de Guilherme II, o último imperador alemão, que também foi o rei da Prússia, de 1888 até sua abdicação, em 1918, ao final da 1a. Guerra Mundial. Dois anos após tomar posse, Guilherme II, que era neto da famosa Rainha Vitória, da Inglaterra, afastou o chanceler Otto von Bismarck e implementou uma política bélica sem precedentes na Alemanha. Com esse espírito, era impossível esperar que o governo alemão fosse mais complacente que o belga, com relação aos africanos de suas colônias. 
Este foi considerado o primeiro genocídio do século XX
e foi um laboratório para o holocausto do povo judeu


Entre 1904 e 1907, no chamado Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia, duas etnias populacionais quase desapareceram, os Hererós e os Namaquas, também chamados Namas. Liderados por Samuel Maharero, logo no início de 1904, um grande número de Hererós se rebelou contra a ocupação colonial alemã. O confronto se estendeu até agosto, quando o general alemão Lothar von Thotha derrotou os rebeldes na batalha de Waterberg e forçou os vencidos a se dirigirem ao deserto de Omaheke, onde uma quantidade enorme de pessoas morreu de sede. O mesmo aconteceu com pessoas da etnia Namaqua, que, em outubro do mesmo ano, também enfrentaram o exército alemão. Dezenas de milhares sucumbiram.
Os Hererós e os Namaquas, que não morreram de
inanição e de sede no deserto, acabaram enforcados 
Foram construídos cinco campos de concentração, para onde foram levadas principalmente mulheres e crianças onde os sobreviventes foram confinados e obrigados a trabalhos forçados. O alimento era super precário e a maioria morreu de inanição. Para completar, envenenaram os poços d’água e mataram os sobreviventes. 
Von Trotha e seus principais comandados

Porta-voz do cruel imperador alemão, o general Lothar von Trotha, cuja brutalidade repressora já era famosa combatendo rebeliões na China e no Leste africano, foi quem deu a ordem para que os poços d'água, 
no deserto, fossem envenenados. Ele enviou um ultimato aos rebeldes, dizendo: “Eu, general dos soldados alemães, envio esta carta aos Hererós. O povo Herero deve abandonar o país. Se negarem, forçarei sua partida com canhões. Qualquer Herero, com ou sem armas, será executado." Em 2.007, alguns descendentes de Von Trotha foram à Namíbia pedir perdão pelos atos de desumanidade do general. 
Soldados alemães, sob o comando do general
Lothar von Trothar, expulsando Hererós pro deserto

Esse episódio está descrito como o primeiro genocídio mundial do século XX e especialistas contam que serviu de modelo, décadas depois, para os campos de extermínio onde se executaram judeus, opositores e homossexuais, entre outros considerados “inimigos do Estado”, durante o nazismo. O governo alemão pediu desculpas, em 2004, pelas atrocidades, mas não admite negociar reparações financeiras aos descendentes dos executados.

Quatro ativistas namibianas da Fundação Ovaherero têm percorrido o mundo – estiveram também no Rio de Janeiro e em São Paulo – para palestrar a respeito do genocídio na Namíbia e do movimento que exige reparações por do governo alemão. São elas as Dras. Esther U. Muiniangue e Engenisie Jazepovandu Neumann e as Sras. Franciska Itiriua Kazenango e Uruanani Kara Matundu.  Segundo elas, os alemães aceitam financiar projetos de infraestrutura no país, mas não querem discutir indenizações aos sobreviventes. Outros países africanos têm feito as mesmas reivindicações e, no Quênia, 5.228 pessoas foram beneficiadas por reparações pelo Estado inglês. Porém, outras 41 mil reivindicam o mesmo direito. Para a instituição representada pelas quatro namibianas, que vieram ao Brasil, a luta por reparações é necessária e não há como aceitar outro tipo de negociação. Elas vieram a convite do PSTU e da CSP-Conlutas Central Sindical e Popular.
Descendentes do general Lothar von Trotha
foram à Namíbia, em 2007, para pedir desculpas
pelas ações de seu antepassado










Não basta aos alemães se
desculparem.O povo da Namínia,
diante de seus mortos,
espera muito mais
Um cemitério-memorial documenta o
genocídio ocorrido na Namíbia 
Em 2011, ossadas de vítimas do genocídio de hereros e manas foram
devolvidas para a Namíbia e recebidas pelo povo para as cerimônias funerais  



E como não relacionar esse histórico ao Brasil atual, onde um jovem negro é assassinado cada 23 minutos? Como não ver um reflexo disso tudo, ao analisar os dados do Mapa da Violência, entre eles a possibilidade de jovens negros serem assassinados no País, ser 2,88 vezes maior do que a de jovens brancos, segundo a 5ª edição do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), divulgada no ano passado. Muita gente troce o nariz, ao ouvir a expressão: “genocídio da juventude negra”. Mas que nome daria ao fato de que ocorrem 63 assassinatos de jovens negros por dia, totalizando 23 mil mortes por ano. O pior é sermos surpreendidos por autoridades festejando essas mortes, pelo fato de poderem chamar os mortos de “bandidos”, ou tentando isentar o Estado, com o argumento de “bala perdida”. Ou ainda um chefe de Estado tentando justificar a execução de um músico, com 80 disparos por parte e um batalhão do Exército, que disparou, por engano, mais de 200 projéteis contra o veículo “suspeito” por ele dirigido. A justificação do injustificável!



terça-feira, 13 de novembro de 2018

Um conto breve de inspiração Bantu

O PRESENTE DE  














O povo Bantu, que ocupa a maior parte do Continente Africano, abaixo do Deserto do Saara, tem um nome muito especial para sua Divindade Maior: N’Zambi, que por aqui, com o passar do tempo, começou a ser chamado de Zambi, assim como o povo é denominado Banto. Mas eu amo ecoar os seus nomes originais. 

Apesar de trazer dentro de si o Tudo – tudo o que poderia existir morava em seu coração –, N’Zambi vivia, pela eternidade, no centro do Nada. Se você tapar os olhos com as mãos, ou permitir que lhe amarrem uma venda sobre eles, terá a mesma sensação que aquela Divindade, em meio à escuridão. Acrescente a essa incômoda sensação a ausência de sabores, de odores, de sonoridades e de algo para tocar.

Não existia nada que pudesse deixa-lo mais feliz, nem menos, e que pudesse provocar alguma lembrança, ou sonho, ou sentimento. 

E N’Zambi, um dia, sentiu necessidade de tudo isso.

Foi aí que tirou de dentro de seu coração um saquinho contendo um pó mágico. Ele nunca tinha visto aquele saquinho, mas tinha certeza do que devia fazer com ele. Abriu-o e apanhou um pouco desse pó, que soprou para o alto.









De repente, o que era escuridão, ganhou bilhões de pontinhos luminosos de todos os tamanhos, que ele chamou de Estrelas. Um ponto bem grande dominava o espaço e N’Zambi o chamou de Lua. Sentiu vontade de dar um nome àquela maravilha que surgiu e escolheu: Noite.


Era tudo muito lindo, mas N’Zambi se encantou com a luz e desejou que fosse ainda mais forte, muito mais intensa. Apanhou mais um pouco do pó mágico, soprou e criou o Dia, que emanava de uma bola de fogo para a qual deu o nome de Sol.



Mas o Nada ainda continuava à sua volta. N’Zambi, então, descobriu o maior prazer de toda a sua vida eterna. Tratava-se de um jogo que Ele chamou de Criaçãoapanhava o pó mágico, no saquinho, soprava, pensando em algo e essa coisa surgia imediatamente, diminuindo cada vez mais as dimensões do Nada. Aquele espaço vazio, que tanto incômodo causava à Divindade, passou a ser ocupado pelo Tudo.

Foi assim que surgiram o mar, os rios, os lagos, nos quais N’Zambi soprou peixes e milhares de outros animais aquáticos. Soprou florestas e todos os animais que hoje existem nelas: os que se arrastam, os que andam, os que correm e muitos muitos que voam. Feliz da vida N’Zambi soprou tudo o que há, o que já houve e que há de existir.



Nas profundidades, implantou ricos metais: ouro, prata, platina, cobre, bronze... montanhas de cristais, rochas contendo pedrarias, que ganhariam nomes como Diamantes, Rubis, Esmeralda, Turmanilas e outros tantos que alegravam os olhos e faziam o coração palpitar muito mais forte... 

Um dia, porém, desejou criar seres que fossem tão completos e complexos, quanto ele próprio. Imaginou que iriam lhe fazer companhia, ajuda-lo a descobrir as emoções, faze-lo rir, chorar, ficar surpreso, se arrepiar. Coisas que não fazem parte do dia-a-dia de uma Divindade... foi aí que soprou os Humanos. 

Foi a pior ideia que N’Zambi poderia ter.  Estes últimos animais criados
por Ele nasceram com uma fome sem tamanho. Fome de engolir o mundo. Uma avidez insaciável, estonteante. A Humanidade devorava tudo o que os seus olhos avistassem. Os humanos chegavam a devorar uns aos outros. Sua fome maior era a de Poder. Queriam, até mesmo, devorar o próprio N’Zambi.

Assim, nasceram a Barbárie, o Racismo, as Crueldades, as Explorações Humanas - como a Escravidão -, o Caos e, com eles, as Guerras.


Quando a ordem é a Barbárie, não há limites para o Mal.


N’Zambi se assustou com essa sua última criação. Precisava criar algo que mudasse a própria natureza dessas criaturas. 

Apanhou o saquinho e... se desesperou: não havia mais um único grãozinho do pó; estava totalmente vazio. 

Lembrou-se, então, de que, entre suas criações, havia algo que fazia tudo virar ao contrário. Ele havia chamado essa criação de Espelho. Correu apanhá-la e resolveu polir sua superfície com alguns óleos essenciais, que extraiu de sua própria natureza divina: o óleo da criatividade, o das artes, o da identidade, o do amor próprio, o óleo do respeito pelo outro, o da cooperação mútua, o da coletividade... e finalizou o polimento com o óleo da ancestralidade.


Novamente pensou, pensou, pensou e deu ao Espelho o nome de Cultura . 

Através do Espelho da Cultura, os humanos, não só começaram a reconhecer a si próprios e aos demais, como também puderam ajudar N’Zambi a dar continuidade ao Jogo da Criação.

E o espelho se multiplicou em milhares. Passou por lá, ...


... passou por aqui e só enriqueceu as vidas de todos nós.










N’Zambi, finalmente, se sentou para contemplar as próprias criações e as criações de suas criaturas. Gostou muito do que viu e resolveu chamar a tudo isso de PAZ!!!
  

sábado, 3 de novembro de 2018


ESCURECENDO O OSCAR...

Quem foi a primeira atriz afro-americana a receber a cobiçada estatueta do maior prêmio do cinema dos EUA? Por qual filme? Em que ano isto ocorreu?

por Oswaldo Faustino

Halle Berry
Octávia Spencer
Jennifer Hudson
 

Woopi Goldberg
Viola Davis
Lupita Nyong'o

Não. Não foi Halle Berry, em 2002, por sua brilhante interpretação da protagonista de “A Última Ceia”, de Marc Forster, como poderíamos imaginar. Nem mesmo outras estrelas negras que estamos acostumados ver nas telas de cinema e na TV. Na verdade, em 1940, Hattie McDaniel conquistou o Oscar de “melhor atriz coadjuvante”, ao interpretar Mammy, a rechonchuda empregada da jovem sulista Scarlett O'Hara (Vivien Leigh), paixãozinha de Rhett Butler (Clark Gable), no clássico “...E o Vento Levou” (Gone with the wind), de 1939. Esse filme, dirigido por Victor Fleming, baseado no romance de Margaret Mitchell, levou 10 das 12 estatuetas para as quais foi indicado, na 12ª versão da premiação.

Em 26 de outubro passado, completaram-se 66 anos da morte de Hattie McDaniel, que permaneceu esquecida, por décadas, a não ser quando se desejava criticar artistas afro-americanos que se submetiam a papeis considerados inferiores ou jocosos, como foi feito através do filme “A hora do show” (Bamboozled), de Spike Lee, em 2000. 

Porém, ignorar McDaniel é uma injustiça que deve ser corrigida, em breve, com uma cinebiografia, que encontra-se em produção e contará sua origem humilde e religiosa, sua trajetória, seu amor pela black music e pelo cinema, seus embates com membros do Civil Rights Movement e seu maior feito: tornar-se a primeira mulher negra a conquistar um Oscar. Os produtores dessa cinebiografia ainda não revelaram qual será o elenco, a direção, nem mesmo a data prevista para o lançamento.
Nascida em Wichita, no Kansas, em 1895, Hattie era a caçula dos 13 filhos do pastor batista Henry McDaniel com a cantora gospel Susan Holbert. Seu pai nasceu sob o regime da escravidão – que nos EUA teve fim em 1863, com a Proclamação de Emancipação, por Abraham Lincoln, durante a Guerra de Secessão, a guerra civil norte-americana –.  Ainda menina, ela formou um quarteto vocal, com o pai e os irmãos Otis e Sam. Foi uma das primeiras garotas negras a cantar no rádio, no EUA, na primeira década do século XX. Jamais abandonou a carreira radiofônica.
Quando o quarteto se desfez, em decorrência da morte de Otis, Hattie seguiu carreira solo e, além de realizar várias gravações, na maioria de composições próprias, participou de diversos espetáculos musicais, com apoio logístico da Theatrical Owners Booking Association, uma associação de negros proprietários de teatros, que faliu com a quebra da Bolsa de NY, em 1929.

SUCESSÃO DE SUPERAÇÕES – A vida de Hattie foi cercada de
atos de superação e de pequenas conquistas. Fosse com relação a si própria, ou provocando mudança de atitude em seu redor. Durante a Grande Depressão, por toda a década de 30 e parte da seguinte, legiões de desempregados vagavam à cata de qualquer tipo de atividade que lhes garantisse alguns trocados. O único trabalho que Hattie McDaniel conseguiu, nesse período, foi o de atendente, no banheiro feminino do Club Madrid, em Milwaukee, uma casa noturna exclusivamente para brancos. O proprietário a conhecia e gostava de ouvi-la cantar. Mas temia uma má reação dos frequentadores. Um dia, porém, arriscou-se a convida-la a subir ao palco e ela se tornou uma das principais atrações daquela boate. Mesmo com dificuldades financeiras, participou das ações para angariar fundos para ajudar os soldados norte-americanos, na Segunda Guerra Mundial.



Revezava a carreira de atriz de cinema com a de cantora e demais atividades no rádio. Como "não" era uma palavra que jamais usava ao receber convites para atuar, teve aparição em mais de 300 filmes, porém, seu nome só consta na ficha técnica de cerca de 80 deles, ao longo de uma careira que durou de 1932 a 1949. Além de Mammy em “...E o Vento Levou”, outro personagem que a destacou foi Tia Dilsey, na comédia Judge Priest” (O Juiz Priest), dirigida por John Ford, em 1934, no qual pode também exibir seu talento de cantora.

Aos militantes das lutas pelos Direitos Civis, que a criticavam por aceitar a humilhação de só interpretar papéis servis, como o de empregada doméstica, respondia: "Ganho 700 dólares por semana, sendo uma empregada, nas telas. Ganharia sete, sendo uma de verdade." Hattie sabia bem do que estava falando, pois, por muito tempo, quando não estava cantando ou filmando, sobrevivia trabalhando de faxineira ou cozinheira, para completar o orçamento. O Oscar melhorou muito seus ganhos, mas não os papeis, que continuaram sendo os de serviçal e de escravizada.
Premiá-la foi uma verdadeira ousadia dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Seguiu-se uma polêmica, pois, apesar da indicação, Hattie não recebeu convite para participar da cerimônia de premiação. O motivo? Era proibido o ingresso de negros e negras no Dorothy Chadler Pavilion, em Los Angeles, onde o evento se realizou, a não ser na cozinha, no estacionamento ou servindo os convidados. Ao tomar conhecimento desse fato, Clark Gable, indicado ao prêmio de “melhor ator”, anunciou que também não compareceria. Foi necessária uma autorização especial para permitirem a entrada de Hattie McDaniel no evento. Gable, então, concedeu entrevistas afirmando que só iria à festa como convidado de sua querida amiga McDaniel. Curiosamente, até ser anunciada vencedora, ela permaneceu na última mesa do salão, longe dos demais indicados pelo mesmo filme, que estavam bem à frente. 
Num ato simbólico, a atriz doou seu Oscar à Howard University, a primeira universidade afro-americana, fundada na capital do país, Washington D.C., em 1867, quatro anos após a abolição da escravatura. Durante os conflitos raciais dos anos 60, a estatueta desapareceu e nunca mais foi encontrada.


Entre as homenagens, após sua morte, há duas estrelas na Calçada da Fama: uma na Hollywood Boulevard, por sua atuação no rádio; e outra na Vine Street, por seu intenso trabalho em cinema. Em 2006, o Serviço Postal dos EUA a destacou na  29ª edição das Black Heritage Series, com a publicação de um selo postal, no valor de 39 centavos.

EM HOLLYWOOD, NEM TUDO SÃO FLORES – Quatro casamentos, uma viuvez, três divórcios. Ao seu último marido, Larry Williams, com quem não chegou a viver um ano, deixou em testamento apenas um dólar. Passou os últimos anos de sua vida em depressão e foi acometida de um câncer. Apesar de ter participado de tantos filmes que enriqueceram muitos artistas de cinema, produtores e diretores, a herança que Hattie deixou à família não chegava a 10 mil dólares.



Assim como Halle Berry, 62 anos depois, Hattie McDaniel dedicou o prêmio da Academia a seu povo: “Este é um dos momentos mais felizes da minha vida. Espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para a minha raça e para a indústria do cinema” afirmou no discurso, de 36 segundos, que lhe permitiram fazer. O de Berry – que reflete seu tempo e as conquistas dos afro-americanos, naquelas seis décadas – durou mais de 4 minutos.
Quando McDaniel  morreu, aos 57 anos, em 1952, o proprietário do Cemitério de Hollywood, reservado aos artistas de cinema e celebridades, não permitiu que seu corpo fosse sepultado ali, por ela ser negra. Seu funeral aconteceu no Cemitério Angelus Rosedale, também em Los Angeles. Em 1999, o empresário Tyler Cassity comprou o cemitério das celebridades e mudou seu nome para Hollywood Forever Cemetery. Então, procurou os familiares de Hattie McDaniel sugerindo que seus restos mortais fossem trasladados para lá, mas eles recusaram, alegando que isso “perturbaria seu repouso eterno”. Cassity, então, mandou instalar um pequeno monumento em memória dela, em frente ao lago, na área central daquele campo sagrado.