terça-feira, 26 de maio de 2020

Saiba mais sobre o Dia da África, comemorado em maio...


Esta matéria foi publicada na edição 167 da revista RAÇA, em 30 de outubro de 2016. Resolvi republica-la aqui, neste ano de 2020, pois a maioria do povo brasileiro ainda sabe pouquíssimo sobre nossa Mama África...






























Diga, rapidamente, o que se comemora no mês de maio. Certamente o Dia das Mães foi a primeira resposta que lhe veio à mente. Outros lembrarão o mês das noivas. Não é impossível que alguns tenham se lembrado da abolição da escravatura e alguém lhe dirá: “Mas esse não é para se comemorar, apenas para se refletir sobre o que foi a escravidão e as lacunas deixadas pela Lei Áurea”. Dificilmente ouviremos que no dia 25 se comemorou o Dia da África, de nossa Mãe África, do continente berço da humanidade.
Samora Machel, de Moçambique, ilustrava a matéria 
publicada na RAÇA, em 2016
Em maio de 2013 completaram-se 50 anos da conferência ocorrida em 1963, quando chefes de estado e diplomatas de 32 países africanos independentes se reuniram em Adis Abeba, capital da Etiópia, a convite do imperador daquele país, Haile Selassie, para traçarem uma estratégia visando uma unificação do Continente Africano. Esse encontro aconteceu de 22 a 25 de maio e se encerrou com a criação da Organização da Unidade Africana (OUA). Nove anos depois, em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o 25 de maio como Dia da Libertação Africana, ou o Dia da África.
Hailé Selassié , imperador da Etiópia ,
o Rás Tafari 

Quem ainda vê o Continente Africano com o mesmo olhar que lia os gibis e assistia aos filmes do Tarzan, do Fantasma, do Jim das Selvas e similares, não tem a menor ideia do porquê se comemorar o Dia da África. Nem entende os objetivos da OUA: promover a unidade e solidariedade entre os estados africanos; coordenar e intensificar a cooperação entre eles, para garantir uma vida melhor para os povos; defender a soberania, integridade territorial e independência desses estados; erradicar todas as formas de colonialismo; promover a cooperação internacional, respeitando a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos; e coordenar e harmonizar as políticas dos estados membros nas esferas política, diplomática, econômica, educacional, cultural, da saúde, bem estar, ciência, técnica e de defesa.
Jomo Kenyatta, 1o. Ministro
do Quênia 

Em seu discurso de 1963, Jomo Kenyatta – pai da independência do Quênia – afirmou que a África só seria livre de verdade no dia em que se realizasse uma reunião de cúpula da OUA, na África do Sul, então sob o cruel regime do apartheid. Quase 40 anos depois, em 2002, a Organização das Nações Unidas realizou na cidade de Durban, naquele país, uma nova reunião de cúpula com participação de representantes de 53 países africanos, ratificando e ampliando sua carta magna. Foi o último encontro da OUA e ali nasceu um novo organismo: a União Africana (UA). 

Dia da África serve para ajudar os afrodescendentes a refletir sobre o continente de origem de seus antepassados. Além de olhar para as civilizações que antecederam à Conferência de Berlim, que retalhou aquele continente com mais de 30 milhões de quilômetros quadrados e leiloou os pedaços entre potências europeias, temos de procurar conhecer a África de hoje. E olhar os africanos, que vêm viver em nosso País, como nossos irmãos e não com os preconceitos herdados do eurocentrismo.


Uma África que não é apenas fome, conflitos entre etnias ou entre nações, miséria, corrupção e AIDS, como a mídia insiste em veicular. Lá vivem mais de 1 bilhão de habitantes (menos apenas que a Ásia). Seu principal bloco econômico é a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), formada por 14 países, dentre os quais Angola e África do Sul.

Hoje ainda há muitas riquezas minerais a serem exploradas, principalmente petróleo. A palavra de ordem do continente, em especial na África do Sul, é o Black Economic Empowerment, o empoderamento dos povos africanos da riqueza de seus países, riquezas que ainda hoje estão nas mãos de empresas multinacionais, geralmente relacionadas com os antigos colonizadores.





segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Sonhos de um menino do Recife*




Por Oswaldo Faustino
“Sai de cima dessa pedra, moleque! Fica aí só olhando o mar!
Vem pra dentro cortar sola! Vem aprender o meu ofício!
Vem aprender trabalhar”...

Pois é, o sapateiro Manuel Abílio Trindade não entendia porque o pequeno Francisco Solano, seu filho, estava sempre olhando para o alto, sempre de frente para aquele marzão, imenso, sem fim. “Eta moleque que vive sonhando! Não quer mesmo botar os pés no chão!”.

Seu Manuel dança Pastoril e Bumba-meu-boi, sempre à noite, quando deixa seu trabalho na sapataria. Só depois vai pra casa beijar sua negra Emerenciana, quituteira de mão cheia, e atacar as surpresas deliciosas das panelas de ferro, sobre o fogão de lenha. Emerenciana não sabe ler, mas pede ao menino, que já aprendeu as primeiras letras, pra que leia pra ela os livrinhos de novelas e poesias de Cordel.
Essa história é uma história acontecida de verdade, num lugar chamado Recife, uma cidade bonita como ela só, no comecinho do século 20. Você conhece Recife? Fica lá no Pernambuco, no Nordeste desse Brasil. Conhece, não? Então tem de conhecer.
É cortada por dois rios: o Capibaribe e o Beberibe. O Capibaribe vem de lá da Serra do Jacarará, terra de capivara e porco do mato. Se arrasta pelo sertão, luta com a seca caminho afora, corta todo o Pernambuco, até ficar forte e generoso, trazendo peixe pra pescar e barcos repletos de carne de sol e farinha, só pra alimentar esse povo do Recife. O menino Francisco Solano sabe disso e ama o Capibaribe, rio valente, lutador, sobrevivente e vitorioso como ele.
O Beberibe não vem de longe, não. Esse vem de ali de perto. Ali de Camarigibe. É filho do Rio das Pacas que se casou com o Araçá. Rio malandro, vem gingando. Seus barcos trazem as meninas bonitas lá do alto, de Olinda. Oh, lindas meninas! Como não amar esse rio?
O que o resto do Brasil não sabe, mas sabe quem é do Recife, é que o Capibaribe se encontra com o Beberibe para formar o mar. Acredite se quiser são esses dois que inundam o oceano, esse mundo de água que separa as terras do Recife das terras do coração de Solano, as terras da África, que ele só conhece através das histórias contadas por sua avó.
“Menino, vem bater sola!”, berra o pai sapateiro, mandando martelo no couro, estendido na bigorna: Plá... Plá.. Plá... Mas o coração de Solano bate uma outra batida. A batida dos couros dos tambores do Maracatu: Tum tá - Tum tá - Tum tátátátá - Tum tá - Tum tá -  Tum tátátátá.... Tum tá - Tum tá - Tum tátátátá - Tum tá - Tum tá -  Tum tátátátá...
E seus olhos vislumbram o cortejo dos Reis e das Rainhas do Congo, gloriosos, dominando a cidade... lá vêm as porta-estandartes, empunhando os pavilhões. Olha lá, as Damas do Paço, com bonequinhas na mão. A boneca é a calunga, preta como Solano, girando, girando, girando... assim como gira o mundo.. assim como ele quer girar... Já entregaram os agrados pra Nossa Senhora do Rosário e pra São Benedito... agora é só festejar.
E cortejo segue em frente: “Olha o Rei! Olha a Rainha! É bonito como que! Lá vêm os caboclos lanceiros, guerreiros... prontos pra guerra, mas são de paz...” Maracatu das maracas, chocalhos que índio fez, dos ganzás, dos agogôs, das alfaias, tambores negros batendo.. agora é a nossa vez... olha as baianas rodando! Olha o baliza, que nas mãos gira um pau, que atira pro alto, bem alto! E pega e gira de novo, e de novo atira mais alto... “Vai cair! Vai cair! Vai cair!”... cai nada, que o moço é dos bons. Solano sabe que o povo nunca deixa a baliza cair...
“O que tu fica pensando aí no alto da pedra, Solano?”... o pai não entende os sonhos do filho. “Bota esse pé no chão, moleque!”
Pé no chão? Só se for pra dançar frevo... frevê, frevá... dançar até o sol raiar... atira o corpo prum lado, cruza as pernas e se atira pro outro... ergue a sombrinha e dança... “Param, param, param, parampam.. pam pam pam... Param, param, param, parampam.. pam pam Paaaaam...”
Para de olhar pro alto, menino! – agora é a mãe, Emerenciana – Vem tomar café. Vem comer dos meus quitutes! Olha aqui embaixo, um pouco que seja, menino!



Não. Solano não pode olhar pro chão. Quem olha pro chão anda de cabeça baixa. E ele jurou pra si mesmo que jamais abaixará a cabeça.   
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê         
“Olorum, o orixá que criou o mundo. Esse mundo grande, gigante, maior que esse oceano que separa o Brasil da África, que um dia eu hei de juntar de novo”... assim sonhava o menino. Menino Solano, menino pretinho, que desde pequeno descobriu que não quer viver no mangue, não quer caçar caranguejo, na lama, pra vender por uns trocados. E rejeitou as correntes da escravidão da miséria...

Muito tempo antes dessa história. Lá num país chamado Paraguai, teve um general chamado Francisco Solano Lòpes. Ele foi o primeiro presidente socialista da América Latina. O presidente do Paraguai, que o Brasil massacrou. Sob o comando de Caxias, um exército de escravos lutou contra o Paraguai, com a promessa de liberdade, depois da vitória. A vitória veio. A liberdade não. Seu Manuel Abílio nasceu muito depois dessa guerra. Mas é homem consciente e, por isso, batizou o filho com o nome de Francisco Solano, igualzinho ao socialista, que o Brasil massacrou.
Não por acaso o moleque, que um dia se encantou com os integralistas, pelo seu nacionalismo, se tornou, comunista, ou seria socialista? “Sei lá. Só sei que tem a ver com povo e povão é o que eu sou e sempre serei.” Dessa certeza, ele não tem a menor dúvida:
“Eu sou Solano. Solano da liberdade. E quando eu tiver um filho há de se chamar Liberto! Liberto Solano Trindade!”. 
Maria Margarida, sua amada, cristã luterana, terapeuta ocupacional e futura coreógrafa, descobre, com o tempo, que mesmo arrastando esse VENTO FORTE AFRICANO para os cultos, jamais o transformará em brisa. 
Da Bíblia vem o nome da filha Raquel, artista como o pai. Outra filha ganha o nome da desafiadora lady despojada de tudo -- inclusive das vestimentas -- em favor de seu povo, em tempos longínquos, na Inglaterra, Godiva. E aquele que receberá o honroso nome de Francisco Solano Trindade Filho, morrerá nos porões da ditadura militar.
Para Maria Margarida, melhor mesmo é seguir com essa ventania pelas experiências do Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos, e depois às reuniões com o intelectual Édson Carneiro, que gerarão o Teatro Popular Brasileiro e, com ele, teatralizar o bumba-meu-boi, os caboclinhos, o coco e a capoeira. E seguirem com o Brasilianas, grupo de dança que ele criará com Haroldo Costa, para percorrerem a Europa afora.
São esses os sonhos que brotam ali sobre a pedra em frente ao mar. Sonha. Sonha em voar como as gaivotas. Sonha em chegar do outro lado do oceano, por todas as terras de todos os povos, e, quem sabe, chegar às terras de seus ancestrais... negros como ele:

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio

e o desejo de libertação

Seus sentimentos e pensamentos se manifestam em poemas. Assim, seus sonhos se transformam em livros: 
Poemas negros (1936); Poemas d´uma vida simples (1944); Seis tempos de poesia (1958); e Cantares ao meu povo (1961). Outros póstumos virão. E Solano se torna "poeta do povo".

E sonhando com libertação, sonha em mudar pro Rio de Janeiro, pra Minas Gerais, pro Paraná, pra São Paulo, em fazer poemas, dançar as danças do povo, divulgar a cultura de seu povo, pintar quadros, escrever e dirigir peças de teatro, sonha que vai ser ator, vai fazer cinema – “Agulha no Palheiro” (1952), de Alex Viani; “Mistérios da Ilha de Vênus” (1960), de Douglas Fowley; “O Santo Milagroso” (1966), de Carlos Coimbra; e A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos. 
Vai passar pelo Teatro experimental do Negros, criado por Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos. Vai criar, com Haroldo Costa, o Teatro Popular Brasileiro e viajar mundo afora com o espetáculo "Brasilianas".  



Sonha em criar uma cidade toda voltada pras artes, onde as manifestações populares não sejam vistas como uma coisa exótica, folclórica, primitiva, mas como coisa do povo e da qual o povo poderá e deverá se beneficiar: 

Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos...
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes...
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais...
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos...
“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só...” Por isso o menino sonha que vai se juntar a outros sonhadores, como ele, para tornar seu sonho realidade. E vai plantar no coração de São Paulo, uma terra de artes e artistas. É quando conhece uma cidadezinha que já foi um aldeamento indígena, que se chamava Bohi, depois M'Boi, e por fim Embu... sim... e o povo vai praticar a arte de viver livre e criativamente... será a Embu das Artes...
Mesmo depois de Solano tomar o rumo das estrelas, suas sementes darão continuidade a essa missão... Raquel, a Kambinda, Liberto, Vitor, Zinho, Regina, Dadá e todos os demais que vierem, seguem semeando as sementes da Solanidade, perpetuando os Trindade...  
Aí, ninguém mais vai segurar os sonhos desse menino. Ele vai correr o Universo com seus poemas, suas pinturas, suas danças e seu teatro popular. Vai levando o trem da história, o menino maquinista, levando filhos e netos rumo a uma grande conquista. E o mundo todo há de conhecer esse trem...










Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome 
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu 
Não... ninguém há de calar essa voz nascida no Recife, em 1908. Essa voz que já passou muito tempo dos 100 anos. Que fará mais 100 e 100 mais... quantos 100 forem necessários para conquistar e enegrecer um a um todos os corações dos habitantes deste planeta. Até que se realizem todos os sonhos desse menino do Recife.
Três vivas para Solano Trindade! Viva! Viva! Viva!

Salve Solano Trindade! Salve a alma e o canto maior desse povo afro-brasileiro! Salve aquele que trazia nas veias o sonho de 

“PESQUISAR NA FONTE DE ORIGEM E DEVOLVER AO POVO EM FORMA DE ARTE "

Foi aí que Nei Lopes e Wilson Moreira transformaram o sonho de Solano Trindade num samba para o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, fundado em 1975, por Antonio Cadeia Filho. Samba que Roberto Ribeiro consagrou: 

*Texto solo criado especialmente para interpretação do grande ator João Acaiabe

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Racismo: nasce o orgulho, morre a vergonha

Ku-Klux-Klan: para escritor paulista Monteiro Lobato, era a solução para dos problemas do  Brasil

País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos [...] Um dia se fará justiça à Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar... [...] porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva". (Monteiro Lobato)

Não por acaso abro este texto com trechos da carta do escritor José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), datada de 10 de abril 1928, ao médico eugenista baiano Arthur Neiva (1880-1943). Nunca será extemporâneo denunciar palavras e atitudes racistas, sejam de quem for, em que tempo for. O curioso é que nomes muito famosos encabeçaram a lista defesa de Monteiro Lobato, em 2010, quando a Dra. Nilma Lino Gomes, então, ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – Seppir, emitiu seu parecer crítico para o Conselho Nacional de Educação sobre a obra “Caçadas de Pedrinho” (1933) – na lista dos livros que seriam distribuídos às bibliotecas escolares do País –, demonstrando o papel “naturalizador do racismo, na sociedade brasileira”, através da linguagem utilizada pelo autor ao referir-se à Tia Nastácia.
Dois trechos de “Caçadas de Pedrinho”, em especial, geraram polêmica:
"Caçadas de Pedrinho":
o motivo da polêmica
 “É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta...”
“Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros”.
Apesar de boa parte da intelectualidade ter vindo a público defender Lobato, afirmando que se educou lendo as obras dele e que ninguém se tornou racista, por conta disso, de lá para cá, o Paraíso da Democracia Racial livrou-se das máscaras e escancarou seu orgulho de odiar a diversidade, de menosprezar a parcela afro-brasileira da população, de ressuscitar teses eugenistas, e tudo o mais que o racismo estrutural vem, há séculos, produzindo em nosso País.
Leis Jim Crow: separação total entre brancos e negros 
Este texto, porém, não tem o Sr. Lobato como foco principal, mas o racismo e a lembrança de que seu argumento tinha como referência o país, onde as leis Jim Crow – título inspirado na concepção de que os negros escravizados seriam idiotas, indolentes, infantilizados – vigoraram de 1876 a 1965, separando os espaços e serviço para os brancos dos destinados aos negros, até mesmo os assentos nos ônibus, como vimos no caso de Rosa Parks. Elas institucionalizaram a segregação racial, baseada numa supremacia branca, excluindo não só negros e negras, mas também asiáticos, imigrantes e outros grupos étnicos.

Depois dele, muitos outros brasileiros bateram continência à bandeira norte-americana, ecoando por toda hit society tupiniquim, classe média e também pelas nossas escolas a máxima cunhada pelo embaixador Juracy Magalhães (1905-2001): “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, proferida durante a ditadura militar, quando exerceu o cargo de embaixador naquele país.  Porém, quando nós jovens negros brasileiros, dos anos de 1960/70, tomávamos como referência a luta pelos Direitos Civis da população afro-americana, o movimento Black Power, os ditos de Malcoln X, James Baldwin e os Panteras Negras, éramos acusados de copiar – utilizavam a palavra “macaquear” – estrangeirismos, afirmando que, por serem realidades diferentes, os modelos de ações não podiam ter semelhanças.
O Movimento Black Power: referência para jovens negros brasileiros
Graças à tradição de  segregação dos EUA , as instituições supremacistas encontravam espaço e condições para exibirem força de intimidação. Mas, lá, existe outra boa e saudável tradição:
“Lei é Lei”, seja criada pelo Congresso, ou decorrente de decisão da Suprema Corte – está aí algo que deveria ser modelo para nossos poderes Legislativo, que cria algumas leis para valerem e outras para não valerem,  e Judiciário, em suas decisões com relação à Constituição –. Lá também vale a vox populi  
graças a instituições como a de advocacia AACP (National Association for Advancing of Colored People), que foi fundamental para conquistar, na Justiça, o fim do segregacionismo.

O orgulho supremacista

Em uma das edições em que tratou desse tema, a revista Superintessante define a Ku-Klux-Klan como uma “milícia criminosa racista criada no sul dos EUA logo após a Guerra Civil Americana (1861-1865)”, a Guerra de Secessão”. Seus fundadores seriam seis veteranos confederados brancos, agindo em reação à libertação dos escravizados e ao projeto governamental intitulado Reconstrução, que se propunha a integrá-los à sociedade.

Fogo: arma de intimidação da KKK contra as minorias
Tornaram-se práticas corriqueiras as ações de ódio dessas milícias: queima de cruzes, incêndios em edifícios; explosões de bombas, como a que matou quatro meninas, numa igreja batista negra, no Alabama; linchamentos; estupros; e massacres, como o de Colfax, na Louisiana, em 1873, quando milicianos armados de rifles e até mesmo um canhão, enfrentaram os participantes de uma manifestação do Partido Republicano, em prol de direitos políticos de afro-americanos. Cento e cinquenta corpos negros foram contados no local, fora os que foram jogados no rio e nos pântanos da região. Três brancos morreram nesse “conflito racial”.  
Placa, no local do conflito, rememora
o Massacre de Colfax
Nascida em 1866, em menos de um ano, a Ku-klux-Klan já se registrava mais de meio milhão de membros. A indumentária adotada, longa túnica com a máscara pontuda, era uma alusão aos fantasmas dos soldados confederados mortos na Guerra de Secessão. E, mesmo após ter sido declarada “organização criminosa”, em 1870, continuou crescendo, graças, principalmente, às leis Jim Crow. Desta forma, o cumprimento das Leis era garantido por criminosos. 

O grande boom de crescimento aconteceu nos 10 anos que se seguiram ao início da 1ª Guerra Mundial, em 1914, quando aos antigos alvos do ódio da KKK, acrescentaram-se os judeus, os católicos, novos imigrantes de outras origens, os comunistas e os homossexuais. Assim, a KKK chegou a 5 milhões de membros. Hollywood muito contribuiu para isso, em 1915, com a estreia do filme O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith, que vilaniza os negros e heroifica os membros da Klan. 
Os números oscilaram através do tempo e até se imaginou que tivessem desaparecido. Mas, volta e meia, ressurgem manifestações de grupos remanescentes da Ku-Klux-Klan, que se fundem com os neonazistas e demais simpatizantes do fascismo e de outras tendências de extrema direita.

Never forget Michael Donald 

A morte de Michael Donald, o último linchamento
do Alabama, abalou em definitivo a KKK
O ano de 1997 entrou para a história dos EUA como aquele em que, pela primeira vez, um homem branco, Henry Francis Hays, foi executado na cadeira elétrica e dois outros comparsas foram condenados à prisão perpétua – todos membros da KKK, tão admirada por Monteiro Lobato –, acusados do assassinato do jovem negro, Michael Donald, de 19 anos. Um quarto envolvido na conspiração que, resultou nesse crime, morreu antes da conclusão de seu julgamento.
Mais do que a punição dos homicidas a Justiça deu um duro golpe no racismo, condenando a United Klans of America (UKA) – uma associação de membros da Klan – a uma alta indenização à família da vítima. 
Henry Hays, o único membro da
KKK executado por matar um negro
A pena de morte, no Alabama, foi implantada em 1913.  Mas, durante todo o século XX, Henry Hays foi o único membro da KKK executado naquele estado, apesar de terem ocorrido nos estados sulistas aproximadamente 4.400 linchamentos praticados por esses grupos. O melhor resultado desta decisão judicial foi a criminalização de todas as instituições que se utilizam de discursos de ódio contra os chamados grupos minoritários.   
Michael Donald, a vítima da sanha assassina dos membros da Klan, era morador da cidade litorânea de Mobile, na baía de mesmo nome, no estado sulista do Alabama. O crime ocorreu em 21 de março de 1981, quatro meses antes de ele completar 20 anos. E passaram-se 16 anos, até que fosse, finalmente, feita a justiça, com a execução de seu principal assassino.
A motivação dos autores desse linchamento foi a retaliação contra o fato do afro-americano Josephus Anderson, ter matado um policial branco, durante a fuga, após um assalto, no condado de Birmingham, no mesmo estado. O julgamento foi transferido para Mobile e só foi concluído em 1985, com a condenação de Anderson a prisão perpétua.  
Na noite de 19 de março de 1981. membros da Klan se reuniram no gramado do tribunal de Mobile e queimaram uma cruz. "Se um homem negro pode se safar de matar um homem branco, devemos ser capazes de sair matando homens negros", bradou em seu discurso Bennie Jack Hays, o segundo homem mais importante da United Klans of America e membro da Unidade 900 da Ku-Klux-Klan, naquele estado sulista, onde ele tinha o cargo de “Titã”, líder local.
Robert Marvin Shelton, o
"Mago Imperial" da UKA 
O número 1 da United Klans of America era Robert Marvin Shelton, que exercia o cargo de “Mago Imperial”. Sob seu comando, crimes e atos de crueldade foram praticados por membros da Klan, entre eles a explosão de uma bomba na igreja batista da rua 16, frequentada por negros, em Birmingham, matando quatro meninas da escola dominical: Denise McNair (11 anos), Addie Mae Collins (14 anos), Carole Robertson (14 anos) e Cynthia Wesley (14 anos) e deixando 23 pessoas feridas; e o assassinato de Viola Liuzzo, uma mulher branca simpatizante e voluntária da causa dos Direitos Civis, atingida por tiros em seu automóvel. 
As quatro vítimas da explosão
de bomba na igreja da rua 16 
Nesse período, a UKA atingiu o número de 33 mil membros. As mensagens que alimentavam o ódio em seus membros e os estimulavam à ações violentas eram veiculadas pela revista The Fiery Cross
"Para Deus e o País"
Com toda a violência
Estimulado pela declaração do pai, na queima da cruz, Henry Francis Hays, na época, com 26 anos, e outros, entre eles James Llewellyn "Tiger" Knowles, de 17 anos, armados de pistola, faca e uma corda, saíram à procura de uma pessoa negra para atacar. Foi quando Henry e "Tiger" avistaram, caminhando numa rua escura, Michael Donald, funcionário de um jornal local e estudante de uma escola técnica.
Viola Liuzzo, fuzilada
por ser solidaria
Donald estava voltando para casa, depois de comprar cigarros para a irmã. Forçaram-no a entrar no carro de Henry e o levaram a um local ermo, numa floreta no condado vizinho. Ele tentou fugir, mas foi espancado com paus e pedras, atearam fogo em seu corpo e, quando estava desacordado, Hays enrolou a corda em seu pescoço e o enforcou numa árvore. Depois, cortou por três vezes sua garganta para ter certeza de que estava morto.
O corpo do jovem linchado foi levado, no porta-malas do mesmo carro, até a Herndon Avenue, a cerca de 1,6 km da delegacia de Mobile, onde deram 13 voltas de corda em seu pescoço e o dependuraram numa árvore, em frente à propriedade do pai de Henry, como se o filho quisesse lhe provar que era capaz de cumprir o que ele havia proposto.
Ao ser preso, Henry Hays estava com 29 anos e
acreditava, piamente, na impunidade 
Segundo a revista do The New York Times, o suplemento dominical do jornal, quando os policiais chegaram ao local onde estava o corpo, no alpendre da casa, na calçada oposta, estavam reunidos vários membros da United Klans of America, entre eles, os autores do linchamento e o dono da casa, Bennie Jack Hays, que, diante daquela cena, – conforme depoimento de um membro da entidade – comentou: "É uma bonita visão! Isso ficará bem no noticiário. E melhor ainda para a Klan”.

Uma mãe nunca desiste do filho

Beulah Mae Donald criou sozinha Michael Donald e seus cinco outros filhos 
Só quem não conhece as Madres de la Plaza de Mayo, cujos filhos foram mortos ou desapareceram durante a ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983, ou as Mães de Maio, grupo de mulheres surgido no Rio de Janeiro, após 10 dias de chacinas, em 2006, que vitimaram 564 jovens, a maioria deles negros, pode imaginar que Beulah Mae G. Donald, mãe de Michael Donald, daria trégua aos assassinos do caçula de seus seis filhos. Em nenhum momento ela perdeu a esperança de vê-los punidos, nem poupou esforços para que isso ocorresse. Só não suportou estar presente no tribunal. Ainda mais ela que criou os filhos sozinha, abandoada pelo marido, pouco depois do nascimento de Michael.

Em vão, durante as primeiras investigações, policiais locais – alguns deles envolvidos com organizações racistas, como a própria Klan – tentaram incriminar o morto – costume que ocorre também nas periferias brasileiras –, afirmando que o crime foi motivado por dívida a traficantes de drogas, ou que ele teria se envolvido com uma jovem branca colega de trabalho e foi morto por vingança.
Beulah Mae provou que o filho não fazia o uso drogas. Quanto ao envolvimento com a garota, também não foi comprovado. O assassinato só podia ter motivação racista. Por isso, ela contatou o reverendo Jesse Jackson, famoso ativista da luta pelos Direitos Civis, que conquistou fama como grande parceiro do reverendo Martin Luther King Jr. (1929 -1968). Na tarde da quinta-feira, 4 de abril de 1968, quando King foi baleado por James Earl Ray, na varanda do quarto 306, do Lorraine Motel, em Memphis, no Tennessee, e morreu quando era socorrido no Saint Joseph Hospital, Jackson estava ao seu lado. Ray foi condenado a 99 anos de detenção e morreu o presídio, aos 70 anos, em 23 de abril de 1998.
Jesse Jackon ao lado de Martins Luther King Jr., minutos antes de
James Earl Ray (no detalhe) assassinar o líder da luta
pelos Direitos Civis do povo negro
Diante do pedido de Beulah Mae, em 1981, Jesse Jackson – que seria por duas vezes pré-candidato às eleições presidenciais dos EUA (1984 e 1988), pelo Partido Democrata – organizou uma marcha em Mobile, da qual participaram cerca de 8 mil pessoas. Em seu discurso, recomendou: "Não deixem que eles quebrem seu espírito". E exigiu solução do crime à polícia. 
A presença de uma personalidade de expressão internacional mobilizou tanto o FBI quanto o Departamento de Justiça local e forçou a reabertura do caso, próximo de seu arquivamento. 
O senador e advogado Michael A.Figures:
e o 1o. Klansman foi para a cadeira elétrica 


senador estadual e ativista dos Direitos Civis, Michael Antony Figures – um feroz inimigo da KKK – foi constituído advogado de Beulah Mae e, dois anos e meio após o linchamento, Henry Hays e James Knowles foram presos. 
Finalmente, a polícia chegou ao cúmplice dos dois assassinos, o motorista de caminhão Benjamin Franklin Cox Jr., que era genro de Bennie Jack Hays, da United Klans of America. O “Titã” também foi indiciado pelos crimes de conspiração e incitação ao homicídio. Henry Hays foi a júri – formado por 11 brancos e um negro. Declarado culpado, o sentenciaram à prisão perpétua. Mas o juiz Braxton Kittrell Jr., do Tribunal Distrital dos EUA, anulou o veredito e o sentenciou à morte por cadeira elétrica.
No ano seguinte, o Tribunal de Apelações Criminais do Alabama anulou a sentença de morte. Mas, meses depois, a Suprema Corte daquele estado confirmou a decisão de eletrocussão. Henry Hays permaneceu no corredor da morte, no Centro Correcional Holman, no Condado de Escambia, até  6 de junho de 1997, quando foi executado, em Yellow Mama.
James Knowles, que ao final do julgamento estava com 21 anos, se declarou culpado do homicídio, mas escapou da execução, por testemunhar contra Hays e afirmar que o objetivo do linchamento era "mostrar a força da KKK, no Alabama". Foi condenado a prisão perpétua e, em 2010, beneficiado por liberdade condicional. Um ano após seu julgamento, Benjamin Franklin Cox Jr., então com 28 anos, também foi condenado à prisão perpétua.
Aos 71 anos e bastante doente, Bennie Jack Hays foi levado a júri. Porém, antes de ser dado o veredito, sofreu um colapso cardíaco, em pleno tribunal. Morreu ao ser socorrido no Hospital da Universidade do Alabama. Pesava-lhe nos ombros a acusação de ser o mentor – conspirador – das ideias que resultaram no último linchamento praticado pela KKK, nos EUA, que levou ao fechamento do United Klans of America, a instituição da qual foi um dos fundadores e líderes. 

Descapitalizar: a melhor punição
Foi seu último linchamento:
a United Klans of America
foi à falência
Faltava, ainda, o golpe final contra a KKK. Beulah Mae Donald constituiu seu advogado o co-fundador do Centro de Direito da Pobreza do Sul (Southern Poverty Law Center - SPLC), em Montgomery, Morris Dees, num processo civil contra a United Klans of America e a Unidade 900. Comprometido com as lutas pelos Direitos Civis, Dees sempre atuou contra a KKK e particularmente contra Robert Shelton. E o testemunho de James Knowles foi fundamental para a conclusão final do julgamento da responsabilidade civil da entidade que ocorreu num tribunal federal. Para tanto, Knowles entrou para o programa do FBI de proteção a testemunhas.
O julgamento se encerrou em 1987, por decisão de um júri constituído apenas por jurados brancos, que condenaram a Klan ao pagamento de 7 milhões de dólares à família Donald, fazendo os demais grupos supremacistas, disseminadores de ódio contra as minorias, colocarem as próprias barbas de molho e sofrerem um esvaziamento de membros, temerosos de comprometerem seus bens pessoais em ações contra suas entidades. Além de ser levada à falência, a United Klans of America viu-se obrigada a entregar para a mãe de Michel Donald, a escritura de sua sede nacional, em Tuscaloosa, que foi vendida pela família por 225 mil dólares.
Ao final do processo vitorioso para a família Donald, Robert Shelton, o “Mago Imperial”, declarou à imprensa: "A Klan nunca voltará. Não com as vestes, comícios, cruzes em chamas e desfiles, tudo o que fez da Klan a Klan, o misticismo, o que chamamos de Klankraft. Eu ainda sou um Klansman, sempre serei.  A Klan é minha crença, minha religião. Mas não funcionará mais. A Klan se foi. Para sempre". Muitos tentam reavivar sua glória, mas tudo indica que Shelton tinha razão.
Beulah Mae Donald:
 "A mulher que derrotou a Klan"
Em dezembro de 1987, Beulah Mae Donald figurou entre as Mulheres do Ano da revista da Ms. Magazine. Ela também foi capa da The New York Times Magazine, e declarou que suas ações não foram motivadas pelo desejo de vingança: "Eu só precisava provar que meu Michael não fez nada errado. Queria saber quem realmente matou meu filho. Nem estava pensando no dinheiro. Se eu não tivesse ganho um centavo, não teria importância. Só queria saber como e por que eles fizeram essa maldade com ele?''. Em 17 de setembro de 1988, aos 67 anos, ela faleceu.   


... e a Herndon Avenue foi rebatizada de
Michael Donald Avenue, justa homenagem
Infelizmente, Beulah Mae G. Donald não chegou a ver a Herndon Avenue, onde o corpo de seu filho caçula ficou exposto, dependurado numa árvore, ser renomeada de Michael Donald Avenue, por iniciativa de Sam Jones, o primeiro prefeito negro de Mobile, em 2006. No ano seguinte, o escritor Ravi Howard lançou o romance Like Trees, Walking, baseado nessa história, que lhe rendeu um prêmio literário. Inspirados no linchamento de Donalds, foram feitos filmes de ficção e documentários, minisséries e especiais para TV, entre outras obras artísticas, como o livro The Lynching: The Epic Courtroom Battle That Brought Down the Klan (2016), de Laurence Leaner, lançado em 2016.

De volta ao começo...

Enfim, retomo o tema com o qual abri esta matéria para contar ao Sr. Monteiro Lobato que os brancos desse País de mestiços, ainda, não tiveram força para organizar uma Ku-Klux-Klan, apesar de tantos deslumbrados por essa instituição terem se desmascarado, nos tempos atuais. Para decepção dele, que pleiteava fosse feita justiça à KKK, informo que a justiça foi feita e, em consequência, a instituição United Klans of America, foi à falência. O tempo nos ensinou que o “devido lugar do negro” é onde ele bem desejar, pois tem capacidade de chegar onde quiser, se houve oportunidade. E a mestiçagem que, segundo ele “destrói a capacidade construtiva”, cada vez mais, se encontra em evidência, em todos os campos do conhecimento e da vida contemporânea.
Muitas daquelas pessoas que afirmaram não terem se tornado racistas, estimuladas pela leitura de obras desse autor, e que se desmascaram, pelas redes sociais e por outros meios, têm como espelho o atual chefe de Estado deste País. Que eles não se esqueçam de que ainda está em vigor a Lei 7.716/89 que define o crime de racismo, como inafiançável e imprescritível. Ela tipifica o preconceito racial e determina a pena de reclusão a quem cometa atos de discriminação por raça, cor ou etnia, extensiva a questões de religião ou procedência nacional. É esse crime que, inclusive, alicerça o GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA.
Claro que os racistas se amparam na impunidade, desde os boletins de ocorrência em que, em vez de se instaurar inquérito pelo crime de RACISMO, o fazem por INJÚRIA RACIAL. Esses inquéritos geram processos que chegam aos tribunais, onde juízes, geralmente brancos e bem-nascidos, punem os acusados com penas de fornecimento de cestas básicas a comunidades carentes ou instituições, ou trabalhos comunitários.
Mas isso só vai ocorrer até o dia em que os primeiros racistas forem punidos com o rigor da lei, como aconteceu nos EUA. Aí virará jurisprudência e mais ninguém conseguirá conter o tsunami de ações contra racistas contumazes que, desde a infância, se sentiram no direto de menosprezar, vilipendiar e agredir a “carne preta” – “a mais barata do mercado” – e nos vêm a todos como uma multidão de Tias Nastácias, “macacas de carvão”.
Nós temos como modelo Beulah Mae Donald. Nada nos fará perder a esperança e jamais deixamos arrefecer nosso desejo de lutar.


Beulah Mae Donald e o advogado Morris Dees que
a ajudou a vencer a causa de US$ 7 milhões
contra a United Klans of America (UKA)