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| Ku-Klux-Klan: para escritor paulista Monteiro Lobato, era a solução para dos problemas do Brasil |
“País de
mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país
perdido para altos destinos [...] Um dia se fará justiça à Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta
ordem, que mantém o negro em seu lugar... [...] porque a mestiçagem do negro
destrói a capacidade construtiva". (Monteiro Lobato)
Não por acaso abro este texto com trechos da carta do
escritor José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), datada de 10 de abril
1928, ao médico eugenista baiano Arthur Neiva (1880-1943). Nunca será
extemporâneo denunciar palavras e atitudes racistas, sejam de quem for, em que
tempo for. O curioso é que nomes muito famosos encabeçaram a lista defesa de
Monteiro Lobato, em 2010, quando a Dra. Nilma Lino Gomes, então, ministra da
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da
República – Seppir, emitiu seu parecer crítico para o Conselho Nacional de
Educação sobre a obra “Caçadas de
Pedrinho” (1933) – na lista dos livros que seriam distribuídos às bibliotecas escolares do País –, demonstrando o papel “naturalizador do
racismo, na sociedade brasileira”, através da linguagem utilizada pelo autor ao
referir-se à Tia Nastácia.
Dois trechos de “Caçadas de Pedrinho”, em especial, geraram
polêmica:
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"Caçadas de Pedrinho":
o motivo da polêmica |
“É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém
- nem Tia Nastácia, que tem carne preta...”
“Sim, era o único
jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que
nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que
parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros”.
Apesar de boa parte da intelectualidade ter vindo a público
defender Lobato, afirmando que se educou lendo as obras dele e que ninguém se
tornou racista, por conta disso, de lá para cá, o Paraíso da Democracia Racial
livrou-se das máscaras e escancarou seu orgulho de odiar a diversidade, de
menosprezar a parcela afro-brasileira da população, de ressuscitar teses
eugenistas, e tudo o mais que o racismo estrutural vem, há séculos, produzindo
em nosso País.
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| Leis Jim Crow: separação total entre brancos e negros |
Este
texto, porém, não tem o Sr. Lobato como foco principal, mas o racismo e a
lembrança de que seu argumento tinha como referência o país, onde as leis Jim
Crow – título inspirado na concepção de que os negros escravizados seriam idiotas, indolentes,
infantilizados – vigoraram de 1876 a 1965, separando os espaços e serviço para os brancos dos destinados aos negros, até mesmo os
assentos nos ônibus, como vimos no caso de Rosa Parks. Elas institucionalizaram a segregação racial, baseada
numa supremacia branca, excluindo não só negros e negras, mas também asiáticos,
imigrantes e outros grupos étnicos.
Depois
dele, muitos outros brasileiros bateram continência à bandeira norte-americana,
ecoando por toda hit society
tupiniquim, classe média e também pelas nossas escolas a máxima cunhada pelo
embaixador Juracy Magalhães (1905-2001): “O
que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, proferida durante a
ditadura militar, quando exerceu o cargo de embaixador naquele país. Porém, quando nós jovens negros brasileiros,
dos anos de 1960/70, tomávamos como referência a luta pelos Direitos Civis da
população afro-americana, o movimento Black Power, os ditos de Malcoln X, James
Baldwin e os Panteras Negras, éramos acusados de copiar – utilizavam a palavra “macaquear”
– estrangeirismos, afirmando que, por serem realidades diferentes, os modelos
de ações não podiam ter semelhanças.
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| O Movimento Black Power: referência para jovens negros brasileiros |
Graças à tradição de segregação dos EUA , as instituições supremacistas encontravam espaço e condições para exibirem força de intimidação. Mas, lá, existe outra boa e saudável tradição:
“Lei é Lei”, seja
criada pelo Congresso, ou decorrente de decisão da Suprema Corte – está aí algo
que deveria ser modelo para nossos poderes Legislativo, que cria algumas leis para valerem e outras para não valerem, e Judiciário, em suas decisões com relação à Constituição –. Lá também vale a vox populi graças a
instituições como a de advocacia AACP (National Association for Advancing of Colored
People), que foi fundamental para conquistar, na Justiça, o fim do segregacionismo.
O
orgulho supremacista
Em
uma das edições em que tratou desse tema, a revista Superintessante define a Ku-Klux-Klan como uma “milícia criminosa racista criada no sul dos EUA logo após a
Guerra Civil Americana (1861-1865)”, a Guerra de Secessão”. Seus fundadores
seriam seis veteranos confederados brancos, agindo em reação à libertação dos
escravizados e ao projeto governamental intitulado Reconstrução, que se
propunha a integrá-los à sociedade.
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| Fogo: arma de intimidação da KKK contra as minorias |
Tornaram-se práticas corriqueiras as ações de ódio dessas
milícias: queima de cruzes, incêndios em edifícios; explosões de bombas, como a que matou quatro meninas, numa
igreja batista negra, no Alabama; linchamentos; estupros; e massacres, como o de Colfax,
na Louisiana, em 1873, quando milicianos armados de rifles e até mesmo um
canhão, enfrentaram os participantes de uma manifestação do Partido
Republicano, em prol de direitos políticos de afro-americanos. Cento e
cinquenta corpos negros foram contados no local, fora os que foram jogados no
rio e nos pântanos da região. Três brancos morreram nesse “conflito racial”.
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Placa, no local do conflito, rememora
o Massacre de Colfax |
Nascida em 1866, em menos de um ano, a Ku-klux-Klan já se
registrava mais de meio milhão de membros. A indumentária adotada, longa túnica
com a máscara pontuda, era uma alusão aos fantasmas dos soldados confederados
mortos na Guerra de Secessão. E, mesmo após ter sido declarada “organização
criminosa”, em 1870, continuou crescendo, graças, principalmente, às leis Jim
Crow. Desta forma, o cumprimento das Leis era garantido por criminosos.
O grande boom de
crescimento aconteceu nos 10 anos que se seguiram ao início da 1ª Guerra
Mundial, em 1914, quando aos antigos alvos do ódio da KKK, acrescentaram-se os
judeus, os católicos, novos imigrantes de outras origens, os comunistas e os homossexuais. Assim, a
KKK chegou a 5 milhões de membros. Hollywood muito contribuiu para isso, em
1915, com a estreia do filme O Nascimento
de uma Nação, de D. W. Griffith, que vilaniza os negros e heroifica os
membros da Klan.
Os números oscilaram através do tempo e até se imaginou que
tivessem desaparecido. Mas, volta e meia, ressurgem manifestações de grupos
remanescentes da Ku-Klux-Klan, que se fundem com os neonazistas e demais
simpatizantes do fascismo e de outras tendências de extrema direita.
Never forget Michael
Donald
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A morte de Michael Donald, o último linchamento
do Alabama, abalou em definitivo a KKK |
O
ano de 1997 entrou para a história dos EUA como aquele em que, pela primeira
vez, um homem branco, Henry Francis Hays, foi executado na cadeira elétrica e dois
outros comparsas foram condenados à prisão perpétua – todos membros da KKK, tão
admirada por Monteiro Lobato –, acusados do assassinato do jovem negro, Michael
Donald, de 19 anos. Um quarto envolvido na conspiração que, resultou nesse crime, morreu antes da conclusão de seu julgamento.
Mais
do que a punição dos homicidas a Justiça deu um duro golpe no racismo,
condenando a United Klans of America (UKA) – uma associação de membros da Klan
– a uma alta indenização à família da vítima.
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Henry Hays, o único membro da
KKK executado por matar um negro |
A
pena de morte, no Alabama, foi implantada em 1913. Mas, durante todo o século XX, Henry Hays foi
o único membro da KKK executado naquele estado, apesar de terem ocorrido nos estados
sulistas aproximadamente 4.400 linchamentos praticados por esses grupos. O
melhor resultado desta decisão judicial foi a criminalização de todas as instituições
que se utilizam de discursos de ódio contra os chamados grupos minoritários.
Michael
Donald, a vítima da sanha assassina dos membros da Klan, era morador da cidade
litorânea de Mobile, na baía de mesmo nome, no estado sulista do Alabama. O
crime ocorreu em 21 de março de 1981, quatro meses antes de ele completar 20
anos. E passaram-se 16 anos, até que fosse, finalmente, feita a justiça, com a
execução de seu principal assassino.
A
motivação dos autores desse linchamento foi a retaliação contra o fato do afro-americano
Josephus Anderson, ter matado um policial branco, durante a fuga, após um
assalto, no condado de Birmingham, no mesmo estado. O julgamento foi
transferido para Mobile e só foi concluído em 1985, com a condenação de
Anderson a prisão perpétua.
Na noite de 19 de março de 1981. membros da Klan se reuniram no gramado do
tribunal de Mobile e queimaram uma cruz. "Se
um homem negro pode se safar de matar um homem branco, devemos ser capazes de
sair matando homens negros", bradou em seu discurso Bennie Jack Hays, o
segundo homem mais importante da United Klans of America e membro da Unidade
900 da Ku-Klux-Klan, naquele estado sulista, onde ele tinha o cargo de “Titã”, líder
local.
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Robert Marvin Shelton, o
"Mago Imperial" da UKA |
O número 1 da United Klans of America era Robert Marvin Shelton, que exercia o cargo de “Mago
Imperial”. Sob seu comando, crimes e atos de crueldade foram praticados por
membros da Klan, entre eles a explosão de uma bomba na igreja batista da rua 16, frequentada por negros, em
Birmingham, matando quatro meninas da escola dominical: Denise McNair (11 anos), Addie Mae Collins (14 anos), Carole Robertson (14 anos) e Cynthia Wesley (14 anos) e deixando
23 pessoas feridas; e o assassinato de Viola Liuzzo, uma mulher branca simpatizante e
voluntária da causa dos Direitos Civis, atingida por tiros em seu automóvel.
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As quatro vítimas da explosão
de bomba na igreja da rua 16 |
Nesse período, a UKA atingiu o número de 33 mil membros. As mensagens que alimentavam o ódio em seus membros e os estimulavam à ações violentas eram veiculadas pela revista The Fiery Cross.
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"Para Deus e o País"
Com toda a violência |
Estimulado pela declaração do pai, na queima da cruz, Henry Francis
Hays, na época, com 26 anos, e outros, entre eles James Llewellyn
"Tiger" Knowles, de 17 anos, armados de pistola, faca e uma corda,
saíram à procura de uma pessoa negra para atacar. Foi quando Henry e "Tiger" avistaram, caminhando
numa rua escura, Michael Donald, funcionário de um jornal local e estudante de
uma escola técnica.
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Viola Liuzzo, fuzilada
por ser solidaria |
Donald estava voltando para casa, depois de comprar cigarros
para a irmã. Forçaram-no a entrar no carro de Henry e o levaram a um local
ermo, numa floreta no condado vizinho. Ele tentou fugir, mas foi espancado com
paus e pedras, atearam fogo em seu corpo e, quando estava desacordado, Hays
enrolou a corda em seu pescoço e o enforcou numa árvore. Depois, cortou por
três vezes sua garganta para ter certeza de que estava morto.
O corpo do jovem linchado foi levado, no porta-malas do mesmo carro,
até a Herndon Avenue, a cerca de 1,6 km da delegacia de Mobile, onde deram
13 voltas de corda em seu pescoço e o dependuraram numa árvore, em frente à propriedade do
pai de Henry, como se o filho quisesse lhe provar que era capaz de cumprir o
que ele havia proposto.
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Ao ser preso, Henry Hays estava com 29 anos e
acreditava, piamente, na impunidade |
Segundo a revista do The New York Times, o suplemento dominical do jornal, quando os policiais chegaram
ao local onde estava o corpo, no alpendre da casa, na calçada oposta, estavam reunidos vários
membros da United Klans of America, entre eles, os autores do linchamento e o dono da casa, Bennie Jack
Hays, que, diante daquela cena, – conforme depoimento de um membro da entidade – comentou: "É
uma bonita visão! Isso ficará bem no noticiário. E melhor ainda para a Klan”.
Uma mãe nunca
desiste do filho
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| Beulah Mae Donald criou sozinha Michael Donald e seus cinco outros filhos |
Só quem não conhece as Madres de la Plaza de Mayo, cujos filhos foram mortos ou desapareceram durante a ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983, ou as Mães de Maio, grupo de mulheres surgido no Rio de Janeiro, após 10 dias de chacinas, em 2006, que vitimaram 564 jovens, a maioria deles negros, pode imaginar que Beulah Mae G. Donald, mãe de Michael Donald, daria trégua aos assassinos do caçula de seus seis filhos. Em nenhum momento ela perdeu a esperança de vê-los punidos, nem poupou esforços para que isso ocorresse. Só não suportou estar presente no tribunal. Ainda mais ela que criou os filhos sozinha, abandoada pelo marido, pouco depois do nascimento de Michael.
Em vão, durante as primeiras investigações, policiais locais – alguns deles envolvidos com organizações racistas, como a própria Klan – tentaram incriminar o morto – costume que ocorre também nas periferias brasileiras –, afirmando que o crime foi motivado por dívida a traficantes de drogas, ou que ele teria se envolvido com uma jovem branca colega de trabalho e foi morto por vingança.
Beulah Mae provou que o filho não fazia o uso drogas. Quanto ao envolvimento com a garota, também não foi comprovado. O assassinato só podia ter motivação racista. Por isso, ela contatou o reverendo Jesse Jackson, famoso ativista da luta pelos Direitos Civis, que conquistou fama como grande parceiro do reverendo Martin Luther King Jr. (1929 -1968). Na tarde da quinta-feira, 4 de abril de 1968, quando King foi baleado por James Earl Ray, na varanda do quarto 306, do Lorraine Motel, em Memphis, no Tennessee, e morreu quando era socorrido no Saint Joseph Hospital, Jackson estava ao seu lado. Ray foi condenado a 99 anos de detenção e morreu o presídio, aos 70 anos, em 23 de abril de 1998.
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Jesse Jackon ao lado de Martins Luther King Jr., minutos antes de
James Earl Ray (no detalhe) assassinar o líder da luta
pelos Direitos Civis do povo negro |
Diante do pedido de Beulah Mae, em 1981, Jesse Jackson – que seria por duas vezes pré-candidato às eleições presidenciais dos EUA (1984 e 1988), pelo Partido
Democrata – organizou uma marcha em Mobile, da qual participaram cerca de 8 mil
pessoas. Em seu discurso, recomendou: "Não deixem que eles quebrem seu
espírito". E exigiu solução do crime à polícia.
A presença de uma personalidade de expressão
internacional mobilizou tanto o FBI quanto o Departamento de Justiça local e
forçou a reabertura do caso, próximo de seu arquivamento.
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O senador e advogado Michael A.Figures:
e o 1o. Klansman foi para a cadeira elétrica |
O senador estadual e ativista dos Direitos Civis, Michael
Antony Figures – um feroz inimigo da KKK – foi constituído advogado de Beulah Mae
e, dois anos e meio após o linchamento, Henry Hays e James Knowles foram
presos.
Finalmente, a polícia
chegou ao cúmplice dos dois assassinos, o motorista de caminhão Benjamin
Franklin Cox Jr., que era genro de Bennie Jack Hays, da United Klans of
America. O “Titã” também foi indiciado pelos crimes de conspiração e incitação
ao homicídio. Henry Hays foi a júri – formado por 11 brancos e um negro.
Declarado culpado, o sentenciaram à prisão perpétua. Mas o juiz Braxton Kittrell Jr., do Tribunal Distrital dos EUA, anulou o veredito e o sentenciou à morte por cadeira
elétrica.
No ano seguinte, o Tribunal de Apelações
Criminais do Alabama anulou a sentença de morte. Mas, meses depois, a Suprema
Corte daquele estado confirmou a decisão de eletrocussão. Henry Hays permaneceu
no corredor da morte, no Centro Correcional Holman, no Condado de Escambia, até 6 de junho de 1997, quando foi executado, em Yellow Mama.
James Knowles, que ao final do
julgamento estava com 21 anos, se declarou culpado do homicídio, mas escapou da
execução, por testemunhar contra Hays e afirmar que o objetivo do linchamento
era "mostrar a força da KKK, no Alabama". Foi condenado a prisão
perpétua e, em 2010, beneficiado por liberdade condicional. Um ano após seu
julgamento, Benjamin Franklin Cox Jr., então com 28 anos, também foi condenado
à prisão perpétua.
Aos 71 anos e bastante doente, Bennie
Jack Hays foi levado a júri. Porém, antes de ser dado o veredito, sofreu um
colapso cardíaco, em pleno tribunal. Morreu ao ser socorrido no Hospital da
Universidade do Alabama. Pesava-lhe nos ombros a acusação de ser o mentor – conspirador – das ideias que resultaram no último linchamento
praticado pela KKK, nos EUA, que levou ao fechamento do United
Klans of America, a instituição da qual foi um dos
fundadores e líderes.
Descapitalizar:
a melhor punição
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Foi seu último linchamento:
a United Klans of America
foi à falência |
Faltava,
ainda, o golpe final contra a KKK. Beulah Mae Donald constituiu seu advogado o co-fundador
do Centro de Direito da Pobreza do Sul (Southern Poverty Law Center - SPLC),
em Montgomery, Morris Dees, num processo civil contra a United Klans of America
e a Unidade 900. Comprometido com as lutas pelos Direitos Civis, Dees sempre
atuou contra a KKK e particularmente contra Robert
Shelton. E o testemunho de James Knowles foi fundamental
para a conclusão final do julgamento da responsabilidade
civil da entidade que ocorreu num tribunal federal. Para tanto, Knowles entrou
para o programa do FBI de proteção a testemunhas.
O
julgamento se encerrou em 1987, por decisão de um júri constituído apenas por
jurados brancos, que condenaram a Klan ao pagamento de 7 milhões de dólares à
família Donald, fazendo os demais grupos supremacistas, disseminadores de ódio
contra as minorias, colocarem as próprias barbas de molho e sofrerem um
esvaziamento de membros, temerosos de comprometerem seus bens pessoais em ações
contra suas entidades. Além de ser levada à falência, a United
Klans of America viu-se obrigada a entregar para a mãe de Michel Donald, a
escritura de sua sede nacional, em Tuscaloosa, que foi vendida pela família por
225 mil dólares.
Ao final do processo vitorioso para a família Donald, Robert Shelton,
o “Mago Imperial”, declarou à imprensa: "A Klan nunca voltará. Não com as
vestes, comícios, cruzes em chamas e desfiles, tudo o que fez da Klan a Klan, o
misticismo, o que chamamos de Klankraft. Eu ainda sou um Klansman, sempre serei. A Klan é minha crença, minha religião. Mas não funcionará mais. A Klan se foi.
Para sempre". Muitos tentam reavivar sua glória, mas tudo indica que
Shelton tinha razão.
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Beulah Mae Donald:
"A mulher que derrotou a Klan" |
Em dezembro de 1987, Beulah Mae Donald figurou entre as Mulheres
do Ano da revista da Ms. Magazine.
Ela também foi capa da The New York Times Magazine, e declarou que suas ações não foram motivadas pelo desejo de vingança: "Eu só precisava provar que meu Michael não fez nada errado. Queria saber quem
realmente matou meu filho. Nem estava pensando no dinheiro. Se eu não tivesse
ganho um centavo, não teria importância. Só queria saber como e por que eles
fizeram essa maldade com ele?''. Em 17 de setembro de 1988, aos 67 anos, ela
faleceu.
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... e a Herndon Avenue foi rebatizada de
Michael Donald Avenue, justa homenagem |
Infelizmente, Beulah Mae G. Donald não chegou a ver a Herndon
Avenue, onde o corpo de seu filho caçula ficou exposto, dependurado numa
árvore, ser renomeada de Michael Donald Avenue, por iniciativa de Sam Jones, o
primeiro prefeito negro de Mobile, em 2006. No ano seguinte, o escritor Ravi
Howard lançou o romance Like Trees, Walking, baseado nessa história, que lhe rendeu um prêmio literário. Inspirados
no linchamento de Donalds, foram feitos filmes de ficção e
documentários, minisséries e especiais para TV, entre outras obras artísticas,
como o livro The Lynching: The Epic Courtroom Battle That Brought Down the
Klan (2016), de Laurence Leaner, lançado em 2016.
De
volta ao começo...
Enfim, retomo o tema com o qual abri esta matéria para contar ao
Sr. Monteiro Lobato que os brancos desse País de mestiços, ainda, não tiveram
força para organizar uma Ku-Klux-Klan, apesar de tantos deslumbrados por essa
instituição terem se desmascarado, nos tempos atuais. Para decepção dele, que
pleiteava fosse feita justiça à KKK, informo que a justiça foi feita e, em
consequência, a instituição United Klans of America, foi à falência. O tempo nos
ensinou que o “devido lugar do negro” é onde ele bem desejar, pois tem capacidade de chegar onde quiser, se houve oportunidade. E a mestiçagem
que, segundo ele “destrói a
capacidade construtiva”, cada vez mais, se encontra em
evidência, em todos os campos do conhecimento e da vida contemporânea.
Muitas daquelas pessoas que afirmaram não terem se tornado
racistas, estimuladas pela leitura de obras desse autor, e que se desmascaram,
pelas redes sociais e por outros meios, têm como espelho o atual chefe de
Estado deste País. Que eles não se esqueçam de que ainda está em vigor a Lei
7.716/89 que define o crime de racismo, como inafiançável e imprescritível. Ela
tipifica o preconceito racial e determina a pena de reclusão a quem cometa atos
de discriminação por raça, cor ou etnia, extensiva a questões de religião ou
procedência nacional. É esse crime que, inclusive, alicerça o GENOCÍDIO DA JUVENTUDE
NEGRA.
Claro que os racistas se amparam na impunidade, desde os boletins
de ocorrência em que, em vez de se instaurar inquérito pelo crime de RACISMO, o
fazem por INJÚRIA RACIAL. Esses inquéritos geram processos que chegam aos
tribunais, onde juízes, geralmente brancos e bem-nascidos, punem os acusados com penas de fornecimento de cestas básicas a comunidades carentes ou instituições,
ou trabalhos comunitários.
Mas isso só vai ocorrer até o dia em que os primeiros racistas
forem punidos com o rigor da lei, como aconteceu nos EUA. Aí virará jurisprudência e mais ninguém
conseguirá conter o tsunami de ações contra racistas contumazes que, desde a infância,
se sentiram no direto de menosprezar, vilipendiar e agredir a “carne preta” – “a
mais barata do mercado” – e nos vêm a todos como uma multidão de Tias
Nastácias, “macacas de carvão”.
Nós temos como modelo Beulah Mae Donald. Nada nos fará perder a esperança e jamais deixamos
arrefecer nosso desejo de lutar.
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Beulah Mae Donald e o advogado Morris Dees que
a ajudou a vencer a causa de US$ 7 milhões
contra a United Klans of America (UKA) |