ARTIGOS

"O SEU CABELO NÃO NEGA"


Talvez mais importante do que “não negar” seria os cabelos revelarem, afirmarem e documentarem uma consciência 

e o orgulho da própria ascendência africana


Vale muito menos o que fazemos com os cabelos que cobrem nossas cabeças – ou mesmo com sua ausência – do que o que trazemos debaixo das raízes deles. Isso sim tem real importância. Porém, não dá para ignorar o fato de que nossa cabeleira pode transformar-se num manifesto político-racial, num discurso afirmativo não verbal. Caso não desejarmos faze-lo com nosso visual e, mesmo assim, quisermos afirmar-nos negros e negras, serão nosso comportamento e nossas palavras que terão a missão de manifestar-se, como é, por exemplo, o caso da família Obama e de milhares de outras pessoas, mundo afora.  

"Cabelo ruim": conceito desde a infância 
Criticar simplesmente os alisamentos, ao longo da história, sem refletir com profundidade sobre o que podem significar para as pessoas que a eles se submetem, também representa um desprezo à liberdade e ao direito à individualidade. Isso é fundamental. Como é a pessoa que seu espelho revela? Como é que ela deseja se ver revelada? O patrulhamento também pode ser questionado por exigir que a pessoa se liberte das correntes do que consideramos branqueamento e se acorrente a uma negritude, muitas vezes, meramente estética. 

Daí, a primeira pergunta a ser feita é: "Com que cabelo você se sente feliz?". Observe que programas-propagandas de venda de pranchas e chapinhas, exploram exatamente isso: quando uma moça de cabelos crespos é chamada, entra com expressão bastante infeliz; à primeira mecha alisada, veja o sorriso que ela exibe. O marketing afirma que não estão vendendo aparelhos, mas sim felicidade, ou o que aquelas moças pensam ser felicidade. 

O documentário com  Chris Rock está disponível na Netflix 
Em “Good Hair” (Cabelo Bom, 2009), Cris Rock apresenta de uma forma muito bem-humorada as questões relacionadas a o que significa ruim ou bom, quando se fala em cabelos. Aproveita para falar de racismo, de como corpo expressa uma consciência étnico-racial. Mas não deixa de mostrar mulheres negras de expressão, que usam cabelos alisados, mas que também contribuem muito para a autoestima das afro-americanas, como a apresentadora de TV Oprah Winfrey e a ex-primeira-dama Michelle Obama.

O documentário parte do questionamento de uma das filhas do comediante do porquê não tem “cabelo bom”. E ele demonstra o quanto tudo à volta de uma mulher negra – e do homem negro também, por que não? –, desde criança, contribui para esse questionamento. Chris Rock demonstra que essa pressão pode anular ações positivas, como a de viver afirmando às filhas que elas são lindas, como são, e não como outras pessoas digam que deveriam ser, despertando a necessidade de “domar os cabelos” com artifícios, como o alisamento e os relaxamentos.   

Maya Angelous: "É cabelo apenas"
Para a maioria, os cabelos têm a mesma função que as madeixas de Sansão – estão relacionados à própria energia vital –, porém, a premiada escritora, poeta e pensadora Maya Angelou declara no documentário: “Eu diria que o cabelo é a glória de uma mulher e que você compartilha dessa glória com sua família. Veem você fazendo tranças, veem você o lavando. Mas cabelo não é algo bom ou ruim. É cabelo, apenas”.

A própria Madame C. J, Walker, sobre quem escrevi a matéria inaugural desse blog, tinha sua linha de produtos que tornavam os cabelos lisos. Ela, porém, destacava muito mais a importância da cura do couro cabeludo, do fim da queda capilar, do fortalecimento e do crescimento dos cabelos e não do alisamento, como destaca sua tataraneta A'lelia Bundles, negando com veemência que a tataravó tenha inventado o pente de ferro para alisar. Já os descendentes do milionário inventor Garret August Morgan – que também criou o semáforo, entre outras invenções – não apresentam nenhum constrangimento em revelar que seu antepassado teria, acidentalmente, descoberto uma pasta, consertando máquinas de costura. Ele percebeu que o óleo usado para evitar que a máquina queimasse os tecidos, deixava os fios lisos e alongados. Após uma modificação aqui, outra ali, seus próprios cabelos estavam lisinhos. Assim surgiram seus cremes alisantes de grande sucesso.
Os dançarinos Nicholas Brothers, em "Tempestade de Ritmos"

Homens negros não estão blindados contra o desejo de “domar" as madeixas. Segundo o compositor, cantor e pesquisador de história e cultura negras, Nei Lopes, os “cabelos fritos” desembarcaram no Brasil, a bordo do filme musical Stormy Weather” (Tempestade de Ritmos) de 1943. Possivelmente no mesmo navio vieram containers lotados de pastas e cremes de toda sorte, pentes de ferro e outras invenções similares. Assim, os salões de barbeiro ganharam filas intermináveis de negros querendo entrar na moda dos cabelos lisos ou, pelo menos, ondulados. Vaselina e meias de seda femininas adquiriam uma nova função: manter os cabelos masculinos grudadinhos na cabela, lisos e brilhantes. 

O filme também pautou a indumentária da malandragem, com seus jaquetões de ombros largos e calças pregueadas com bocas extremamente estreitas. Diz a lenda que a polícia jogava uma laranja dentro das calças dos suspeitos de malandragem e, se descesse nas pernas da calça e não saísse, os levavam para a delegacia. Mas esse é um tema futuro para apresentarmos aqui.  

Angela Davis: cabelos afirmativos
A rebelião do movimento Black Power, nos anos 1960, não apenas libertou a consciência política com relação aos direitos civis dos afro-americanos e afros do mundo todo, mas também alimentou a cultura Black Soul que, artisticamente, nos trouxe uma sonoridade e um novo visual negro. Através dessa manifestação artísticas nosso povo, em especial a juventude, se livrou da ditadura da obrigatoriedade dos alisamentos.

O livro de Kiusam: fundamental
Certamente deve ter sido essa libertação que mais inspirou a doutora em Educação e escritora Kiusam de Oliveira a escrever seu livro O Mundo no Black Power de Tayó (ed. Peirópolis, 2013), com ilustrações de Taisa Borges, um grande sucesso editorial infantil, largamente consultado por adultos. Através de seus longos e arredondados cabelos a pequenina Tayó descobre a cultura de seu povo, a si própria e a seus grandes valores.     

O dreads de Bob: manifesto musical
Muito antes dos cabelos Black Power, na Jamaica, o movimento ratafari adotou o que viria a ser chamado dreadlocks. O que era uma interpretação bíblica sobre os cabelos fez-se uma marca, um manifesto identitário, que ganhou o mundo graças à internacionalização o Reggae. 
Luana, personagem criado
por Aroldo Macedo, autor
com Oswaldo Faustino, de
quatro livros. Também em
histórias em quadrinhos   

Enfim, não existe uma forma única de nos afirmar-nos negros e negras. O compromisso com a história e a cultura do nosso povo não depende de como nos vestimos ou com o que fazemos com nossos cabelos. Faça o que quiser com a parte externa de sua cabeça e cuide da melhor maneira possível da parte interna. Seus cabelos podem ser pintados da cor que você bem entender, descoloridos, raspados ou você pode usar as multi-criativas tranças de infindáveis variações. 

Eu, particularmente, me encanto com tranças e penso que cultivá-las, ainda na infância, tem alimentado a criação de uma identidade e a autoestima das crianças negras de ambos os sexos, o que fortalece o alicerce para uma excelente relação com a própria negritude e com o mundo à volta delas. 

Cultivar a felicidade, através do auto-reconhecimento e de uma identidade afro-descendente, vale realmente a pena. E tod@s devemos estar unid@s nessa jornada.