quarta-feira, 10 de maio de 2017

ENTRE CORDAS, COUROS E PAUS...

                                     por Oswaldo Faustino

"Quando morre um Griot, é uma biblioteca que desaparece".

Esta é uma história contada por um Griot . 

Fala de Harmonia e da Desarmonia entre instrumentos musicais africanos que 

sonham
reinar, brilhando em solos sem fim.    



Você sabe o que pode acontecer numa noite de Lua cheia? Numa noite dessas, em que a Lua se veste de preto, o velho Griot tranca a porta do quartinho, onde guarda seus instrumentos musicais, e se retira para repousar em seus próprios aposentos.
Ele faz uma oração a Allah, mas não se deita... Antes, lança um pó sobre as brasas do pote de barro, que ajudam a aquecer o frio, e uma fumaça intensa e perfumada se lança em direção à morada eterna dos deuses de seus antepassados e dos antepassados de seus deuses.
O breu da noite, lá fora, só não é tão negro quando o breu lá dentro do quartinho dos instrumentos do Griot.
De repente, o silêncio é quebrado. Sons suaves, quase silenciosos, começam a vibrar e a se entrelaçar em acordes magníficos. Pouco a pouco, uma melodia, jamais ouvida, toma conta do ar.
É a Kora, a sonora harpa-alaúde das terras  de África. Exibida, como ela só, deixa-se vibrar em todas as suas 21 cordas de pele de antílope. E é lindo, muito lindo de se ouvir. Parece que as cordas são dedilhadas por centenas de belas mãos celestiais. Sente-se no ar, o bailado de um magnífico espetáculo: o Orum se casando com o Ayê.
Aquele lindo som vai acordando um a um os demais instrumentos. A bela melodia faz com que, apesar do sono, juntamente com os olhos se abram sorrisos. Um olha para outro e simplesmente sorri. 
Kora vai se enchendo de orgulho. De olhos fechados toca mais e mais, sorrindo também. E é assim que todos aqueles sorrisos iluminam o quartinho de instrumentos. De repente, do mesmo jeito que começou, a Kora para de tocar. Sua bela cabaça começa a se agitar com um pensamento:
Já pensou se eu fosse um ser humano? Se eu fosse igualzinha aos humanos da aldeia em que vivemos? Ai, como seria bom! Eu não precisaria nunca mais de nenhum artista para fazer minhas cordas vibrarem. Eu mesma as vibraria e criaria maravilhosas canções. Vocês não concordam comigo?”
Sim, sim – responde o Balafom, enquanto seus martelinhos de pau-ferro saltitam sobre o teclado de madeira nobre e avermelhada –. Seria a coisa mais linda. se nós fossemos gente. Eu contaria as histórias que o velho Griot conta, percorrendo aldeias, reinos e os lugares mais distantes, saltando sobre minhas próprias pernas. Eu poderia tocar, cantar e dançar ao mesmo tempo.
Boooom demaisss!!!”, comenta com sua voz baixo-profundo o Bolon, vibrando suas quatro grossas cordas, cujo som é amplificado em seu bojo coberto de pele e pelos. Fooosse gente, eu trovejaria a cada manhã, para acordar todos esses preguiçooosos”, comenta gargalhando.
Sim... Boong. – complementa o TamborGente pode tudo... Boong. Gente pensa... Boong. Gente decide... Boong. Gente manda e desmanda... Boong”.
É quando se ouve, suave, a Kalimba: E eu? Tudo o que eu mais queria na vida era vibrar minhas palhetinhas metálicas a meu bel prazer. Uma a uma, todas juntas. Imitar os sons dos pássaros. Cantar minhas próprias canções, nascidas do fundo de minha cabaça.
E, assim, cada um dos instrumentos vai confessando que sempre sonhou em se tornar um ser humano. E o quanto é bom sonhar esse sonho.
Até que a Kora perde a paciência e grita: “Sabem o que seria melhor, se nós fossemos humanos? É que eu seria uma Rainha!
Raiiiiiiiiiiiiiinha?!?!?!”, gritam todos, ao mesmo tempo.
Sim... Rainha! Porque, no mundo dos humanos, a Rainha é o ser mais poderoso. A pessoa mais bela, mais elegante, mais talentosa. Ouçam as minhas 21 cordas e me digam: Quem é mais poderosa que eu?"
Eu! – berra o BerimbauPoderoso e talentoso. Você precisa de 21 cordas. Eu... – sorri com desdém – Ouça! Com uma só corda, uma vareta, um dobrão, um caxixi e uma cabaça, eu vibro a própria sonoridade do coração humano. Meu som percorre o mundo e faz a roda dançar, jogar e lutar, ao mesmo tempo. Eu sou a voz da Capoeira!
Você?! – indaga, com ironia, o AtabaqueVocê não passa de um arquinho pretensioso. Aliás, para mim, cordas só têm uma serventia: enforcar os prepotentes que atravessam o meu caminho. O que é o teu som diante do meu? Eu comando o ritmo da Capoeira. E vou muito mais além: são meus toques que chamam os Orixás e os põem para dançar... toque por toque.
Impossível de se imaginar o que faz o Atabaque, nesse momento. Desfila ali, naquele momento, todos os toques conhecidos e inventa mais alguns. Ao terminar apura os ouvidos para ouvir a aclamação. Ele tem a certeza de que é o Rei dos instrumentos musicais.
Nhem-nhem-nhem, nhem-nhem-nhem... – gargalha o Djembê –. Quem aqui é que tem ginga? Quem tem o molejo?"
Ah! Não prestou... Naquele momento, todos os instrumentos do quartinho começam a tocar, ao mesmo tempo. E um quer tocar mais alto que o outro. Se aquilo é um reino, ali é o castelo do caos. Uma barulheira sem fim!
Ainda se juntam aqueles que não haviam se manifestaram: o Agogô, o Reco-reco, o Xequerê, o Afoxé, o Ganzá... A Cuíca ronca fino, ronca grosso, choraminga e emenda um longo gemido. E a balbúrdia se torna ensurdecedora...
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O Griot acorda assustado. Mal joga uma túnica sobre o corpo nu e corre  pro terreiro para ver o que está acontecendo. E o que ele vê o faz arrepiar-se da cabeça aos pés. Do outro lado, avista centenas de tochas acesas. 
A barulheira acordou todos os guerreiros da aldeia. Eles chegaram muito cansados das batalhas para proteger o reino. Só queriam repousar em suas redes, nos braços das mulheres amadas. Mas foram impedidos por aquele ruído infernal. De lanças, machados e porretes nas mãos, alguns já se preparam para destruir, arrasar, aquele quartinho com tudo o que houver dentro.
E lá no interior do quartinho, os instrumentos, caladinhos, estão apavorados. Cada qual caça um cantinho para se esconder. Tremem feito vara verde. Banhados de suor, cada um está mais de-sa-fi-na-do que o outro.
O Griot já antevê o fogo arrasando tudo, queimando séculos de histórias contadas e cantadas, não só por ele, mas por seu pai, que as recebeu do pai dele e este de seu próprio pai, de geração a geração. Histórias sempre acompanhadas, ora por um instrumento musical, ora por outro.
Parem! – ordena aos guerreiros – Não matem as histórias do nosso povo! Se o fizerem estarão matando a nós todos e aos nossos descendentes, pois nos tornaremos árvores sem raiz. Aí, vamos secar e virar pó.”
Foi por pouco, muito pouco. Um a um, os guerreiros começam a se afastar e a voltar para as próprias moradas, ávidos pela rede e pelos braços das amadas.
O Griot abre a porta do quartinho, corre os olhos e confere instrumento por instrumento. Estão todos ali, caladinhos, envergonhados. Sem balbuciar uma só palavra, apenas com o olhar, ele os adverte: “Quem quer ser o que não é, sempre corre o risco de deixar de ser o que é. E de virar um... nada”.
Olha! Demora muito para cada um daqueles instrumentos voltar a tocar de novo. Um tempão depois, muito timidamente se ouve um som. É um som quase silencioso. “Psssssss Hummmmmm!...”... E, pouco a pouco, eles vão redescobrindo o próprio som e o verdadeiro sentido da palavra Harmonia:

H - a - r - m - o - n - i - a é quando cada som se complementa na sonoridade do todo e a gente se sente parte de uma grande Sinfonia!

sábado, 6 de maio de 2017

DA CRUEL PENA DE MORTE À LIBERDADE

um conto de Oswaldo Faustino, sobre fatos verídicos


São Paulo e sua história sempre me
fascinaram e continuam fascinando. 

A cidade tem fatos pouco conhecidos. 

Contando,“até Deus duvida”.


O Beco dos Aflitos, já fez parte de um cemitério
A presença daquela moça negra muito bem vestida, fotografando, na esquina da Rua dos Estudantes com o Beco dos Aflitos, pode ter dado a impressão, a quem a visse, de tratar-se de uma turista interessada em registrar a imagem da pequena capela em estilo colonial, no final daquela rua sem saída. Profissional de comércio exterior, ela também se interessa bastante em conhecer, entre outras coisas, locais e fatos relacionados com o povo afro-brasileiro. Ao parar em frente à velha porta da igrejinha, ocupavam sua mente lembranças de uma conversa, ocorrida semanas antes, sobre execuções por enforcamento, escravidão, cemitérios e, principalmente, sob a liberdade, por sinal o nome do bairro em que se encontrava.
A Igreja de Nossa Senhora dos Aflitos
Lá estava ela no interior da capelinha que, até o século XIX, fazia parte do Cemitério dos Aflitos, local onde se enterravam as pessoas que foram justiçadas por enforcamento. Você sabia que a maioria dos enforcados eram negros? Ali também eram enterrados os escravizados mortos, fosse qual fosse a circunstância, e os indigentes. A moça sentiu no ar uma forte energia que lhe causava aflição. Uma solícita funcionaria a recebeu, lhe vendeu velas e lhe contou a mesma história que ouvira, dias antes, e que despertou nela o desejo de conhecer aquele local. Ela porém, não esperava o que se seguiu: sentou-se numa cadeira e começou a chorar compulsivamente.
Aflição inexplicável
Afinal, o que teria causado nela tamanha aflição? Por que será que pessoas batem três vezes à porta, chamando pelo nome dele, fazem um pedido e, muitas vezes, se retiram sem entrar? O que há de verdadeiro nessa história? Em meio a tantos mistérios e lendas geradas pelo imaginário popular, o que realmente aconteceu? Se ali existiu um cemitério, para onde removeram os restos mortais dos que lá foram sepultados? Essa última indagação foi respondida pela funcionária, ao contar que operários da construção civil, que trabalharam na região, se surpreenderam com o encontro de ossos humanos, durante as obras de vários prédios. Em qualquer lugar do mundo esse encontro justificaria considera-lo um “solo sagrado” e, até mesmo, transformá-lo em sítio arqueológico.

Desigualdade, uma tradição

Assim como a corrupção, os preconceitos e discriminações, que justificam a desigualdade, habitam estas terras, desde a chegada das caravelas de Cabral. Apesar da convivência estimular a mútua aceitação e até gerar afetos, tanto os colonizadores quanto seus herdeiros jamais abriram nem abrirão mão de seus privilégios. A crueldade e o menosprezo pelo outro, considerado inferior, tornaram-se uma tradição desde o Brasil Colonial, prosseguiram, mesmo depois da transferência da Família Real e da Corte Portuguesa para as terras Tupiniquins. Sobreviveram ao  e ao  Império, entraram República adentro e perduram até os dias atuais.
Militares portugueses: privilégios
Militares brasileiros: desprezo












Isso justifica o ocorrido na cidade de  Santos, na noite de 27 para 28 de junho de 1821, quando soldados brasileiros, brancos “sem pedigree”, indígenas, negros e mestiços, do 1º Batalhão de Caçadores, tratados diferentemente dos privilegiados militares portugueses, se rebelaram. Além dos soldos destinados a eles serem inferiores, Os salários deles estavam 5 anos atrasados. Integrar as forças militares era uma possibilidade de trabalho urbano para os homens livres. Naquela cidade litorânea, então, além da Marinha e da estiva, a Infantaria do Exército era uma boa opção de emprego para os alforriados.
Eram negros os líderes da revolta: o corpulento cabo Francisco José das Chagas, o Chaguinha (ou Chaguinhas) e o mirrado soldado José Joaquim Cotindiba. Eles estimularam os demais ao enfrentamento e a invadirem um navio português. Durante o confronto, houve as mortes de um oficial e de outros membros da tripulação do navio. Todos os envolvidos na rebelião foram presos e punidos, a maioria com exílio, e os dois líderes condenados à morte por enforcamento.
    

Em São Paulo, o Campo da Forca

Os condenados à morte foram trazidos à capital da Província, para a execução. Na atual Baixada do Glicério, foram mantidos no presídio até a tarde de 20 de setembro, quando subiram a trilha, onde hoje é a Rua Tabatinguera. Na esquina da Rua do Carmo, entraram na Igreja da Boa Morte, para rezar à Virgem protetora dos que estão prestes a morrer. Depois, a dupla seguiu em direção ao Bairro da Pólvora, onde os dois passaram  a noite trancados na capelinha do cemitério dos Aflitos.
Diante de uma multidão Cotindiba e Chaguinha foram executados
Na manhã seguinte, a multidão tomava todo o espaço do Campo da Forca, ávida por ver a dupla caminhando pelo corredor da morte. O laço da corda dependurada era o prenúncio do que estava para acontecer. Naquele tempo, era comum se utilizar de corda feitas por feixes de barbantes, traçados entre si. 

Cotindiba foi sorteado o primeiro a ser enforcado. 
Lida a decisão judicial, a corda foi colocada em seu pescoço e o carrasco abriu o alçapão do patíbulo. O tranco o estrangulou. Ao se constatar que estava morto, cortaram-lhe a cabeça, que foi posta numa caixa de madeira, com bastante sal grosso. Isso serviria para conserva-la, enquanto fosse levada por toda a Província, mostrando à população o que estava reservado para todo aquele que ousasse se rebelar.
Aí chegou a vez do Chaguinha e se seguiu o mesmo ritual. Quando o carrasco abriu o alçapão, o pesado corpo se precipitou. Dado o tranco, a corda arrebentou. O condenado caiu no solo, de uma altura de cerca de três metros. Ele se feriu, mas continuava vivo. Pela tradição, a pena poderia ser comutada, mas o juiz, ali presente, ordenou que se arranjasse outra corda para a execução. 

"Liberdade! Liberdade! Liberdade!", bradava a multidão
O carrasco tomou a providência e, para surpresa geral, essa também se rompeu. Novamente Chaguinha despencou ao solo. Surpreso, o povo começou a gritar: “Milagre! Liberdade! Liberdade! Liberdade!”. Um grupo de pessoas foi ao palácio do governo pedir clemência para o condenado. Mas o presidente da Província negou-se a assinar o perdão. Agora, providenciaram uma “corda” feita com tiras de couro trançadas. Também arrebentou. A multidão foi ao delírio. Furioso pelo fracasso de sua empreitada, o carrasco o matou com golpes de porrete.
Velas e cruz inspiram a criação,
no local, de uma nova capela
às almas dos enforcados
Na manhã do dia seguinte, no Campo da Força, havia uma cruz de madeira rodeada por muitas velas. Policiais receberam ordem de destruí-la. No dia seguinte, nova cruz lá estava e mais velas acesas, o que aconteceu sucessivamente, por semanas, apesar da repressão policial. O bispo da cidade autorizou que se cercasse uma área onde foi mantida a cruz e se pudesse acender velas. Posteriormente no mesmo local foi construída uma capela que recebeu o nome de Santa Cruz das Almas dos Enforcados, inaugurada em 1887. Quase duas décadas antes, em 1870, o antigo Campo da Forca foi rebatizado de Largo da Liberdade. Liberdade também passou a denominar antigo Bairro da Pólvora.     

Acha que é Lenda? Pergunte ao padre!

Aos incrédulos, para os quais essa história não passa de uma lenda urbana, recomenda-se consultar as atas da Câmara dos Deputados, onde consta um depoimento do Padre Diogo Antônio Feijó, realizado em 1832, quando ele era regente do Brasil, enquanto o príncipe herdeiro, Pedro de Bragança, filho do imperador, não atingisse a maioridade.
O Pe. Diogo A. Feijó

Feijó e frades capuchinhos do convento do Largo de São Francisco acompanharam as duas execuções e se encarregaram das orações por suas almas. Lembrava-se bem dos fatos ocorridos, onze anos antes daquele depoimento, e declarou aos políticos: “Vi com meus próprios olhos a execução do cabo Chaguinha, que se deu antes do julgamento do pedido de clemência feito ao príncipe regente, D. Pedro I. Ao iniciar o enforcamento, o cabo caiu porque a corda se rompeu. Como não havia corda própria para enforcar, usaram laço de couro, mas o instrumento não foi capaz de o sufocar com presteza. A corda novamente se partiu e o condenado caiu ainda semivivo, já em terra, foi acabado de assassinar”.


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Ali sentada naquela cadeira, na capela de Nossa Senhora dos Aflitos, a jovem repassa na mente e no coração todo do sofrimento vivido por Francisco José das Chagas, e a total indiferença ou desconhecimento com relação os ossos de tanta gente, de maioria preta, que se encontram sob os alicerces daqueles edifícios e questiona: "Quantas mortes são necessárias para sustentar a Liberdade?". Quando consegue controlar o choro, levanta-se e sai da capela, bastante aliviada. Nesse momento, avista uma senhora que bate três vezes à porta da igreja chamando por Chaguinha. Agora entende exatamente o que isto significa.

Caminha em direção à praça e até sente vontade de sorrir, ao ler na placa da estação do Metrô: LIBERDADE. Apanha o transporte público para casa, pensando no que escreveu o dramaturgo britânico William Shakespeare: “Há mais mistérios, entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã Filosofia”.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

AVE MARIA!... A PRETA MÃE DO SALVADOR

por Oswaldo Faustino

(matéria publicada na revista Família Cristã, das Edições Paulinas, aqui com algumas alterações)

Será que Maria, mãe de Jesus Cristo, teria pele preta ou
mestiça, ao contrário de como artistas europeus a conceberam? 
Só o racismo é capaz de impedir esse tipo de reflexão, diante de tantas Madonas Negras, no mundo todo.


"Nossa Senhora Aparecida não é preta. Ela tem essa cor escura por causa do tempo que passou debaixo d'água, no rio Paraíba". Quantas vezes você já ouviu cristãos "fervorosos" fazendo esse tipo de afirmação? O que eles ignoram é, que milênios antes do nascimento de Jesus Cristo, até a construção do Canal de Suez, inaugurado em 1869, o Oriente Médio e a África eram ligados por uma larga faixa de terra através da qual povos se deslocavam livremente de um lado para outro, unindo naturalmente semitas e africanos de várias etnias. 
N. Sra. Einsiedeln, dos Eremitas (Suíça),

Por sinal, segundo o Novo Testamento, durante a perseguição de Herodes, visando assassinar a criança que seria o Messias prometido, Maria e sua família fugiram para o Egito, no norte da África, onde teriam convivido, como se egípcios fossem. E a população daquele país era formada por pessoas de pele preta ou amarronzada. Enfim, a única certeza que se tem é de que, vivendo na Palestina ou no Egito, Maria jamais teria origem nórdica, ou caucasiana, ou ariana, como tentam nos impingir.

Algumas das imagens célebres da Virgem Maria, tanto em pinturas quanto em esculturas, veneradas em países como a França, a Alemanha, a Rússia, a Polônia, a Suíça, a Áustria, a Espanha e Portugal, entre muitos outros, são escuras. Por essa razão, elas são chamadas de Madonas Negras. No mundo todo há mais de 500 dessas imagens, grande parte delas na Europa. Algumas se encontram em museus, mas a maioria, em capelas, catedrais ou basílicas, para onde atraem multidões de devotados peregrinos. 


Madona de Czestochowa,
originária da Polônia
Um bom número de estudiosos dedica-se à pesquisa das origens de várias das representações da mãe do Salvador. A maioria foi pintada ou esculpida nos primórdios do Cristianismo. Muitas delas foram levadas para a Europa por legiões de cruzados, ao retornarem das chamadas Guerras Santas, entre os séculos XI e XIII, com uma imensidão de troféus das batalhas pela reconquista de Jerusalém. Mesmo nos confrontos em que as Cruzadas não foram vitoriosas, os saques aos tesouros das igrejas bizantinas, catacumbas, sarcófagos e criptas, faziam parte da rotina e dos costumes daqueles que de vangloriavam de combater os "infiéis" em nome da fé cristã e que, por esse ato "heroico", recebiam indulgências papais e títulos de nobreza. 

Não se descarta também a influência mourisca do Norte da África, durante os mais de seis séculos de dominação sarracena sobre a Península Ibérica. Vários sincretismos surgiram nesse período e certamente interferiram no imaginário artístico daqueles que foram encarregados de produzir as imagens representativas de Maria. Uma majestosa rainha com traços faciais explicitamente africanos podemos reconhecer, por exemplo, na representação de Nossa Senhora do Pilar, confeccionada nos primórdios da era cristã, que se encontra em Zaragoza, na Espanha.   

N. Sra. do Pilar, em Zaragoza, Espanha, uma das mais antigas da Europa  



N. Sra. do Caminho, Hodegetria (Moscou) 
O importante é que, seja nos traços da figura da Virgem com o Menino Jesus no colo, seja nos detalhes dos trajes e demais adereços que compõem a obra, se constata uma concepção em linguagens incomuns às criações artístico-religiosas europeias. Isto confere a essas Madonas Negras, em particular, um magnetismo e até mesmo certa aura de mistério.

Arquétipos ancestrais

Respostas simplistas são dadas por aqueles que, apesar da devoção, sentem a necessidade de justificar a cor escura dessas representações: o enegrecimento pela fuligem da fumaça das velas, acesas há séculos, nos locais onde se encontram expostas; ou ainda pela umidade; a deterioração da tinta, também em consequência do tempo; escurecimento da argila ou pedra utilizada na elaboração escultura; ou ainda a qualidade da madeira. Tais “mudanças”, porém, não se verificam nos demais detalhes da pintura ou da escultura.

Pureza da cor branca, em Maria e nos anjos
As imagens produzidas na Europa, mais conhecidas, apresentam, com maior ênfase, o caráter "imaculado" da Mãe do Filho de Deus, geralmente representado pela alvura da pele, frente à escuridão caracterizada pelo que chamam de paganismo, pelo mundo profano e pela sensualidade, associados aos povos africanos e outros não europeus, que para os devotos não foram "agraciados" com pele e alma brancas.
A deusa Ártemis, de Éfeso
Já as Madonas Negras, quer em traços, quer em expressão, representam atributos de sabedoria, de fertilidade, de mistério e de poder, herdados do próprio mito da Mãe-Terra. Esse mesmo mito era atribuído, em crenças mais antigas, a deusas como Ísis, Kali, Cibele, Lilith, Diana, Ártemis, Hécate, Demeter, ou Sophia (Sabedoria) – também chamada Hockmah pelos judeus (que seria Pai e Mãe ao mesmo tempo) –, a Grande Mãe dos gnósticos, da Opus Dei, herdada pelos monges guerreiros templários.  Muitas dessas deusas foram elevadas à categoria de Magna Mater (Mãe Maior) e Mater Deum Magna (Grande Mãe de Deus), que o Cristianismo condenou ao absoluto desaparecimento para dar lugar a Maria Santíssima.

A  gênesis do Cristianismo

O teólogo Guilherme Botelho Jr.
O teólogo e historiador Guilherme Botelho Junior, membro da Pastoral Afro-Brasileira de São Paulo, nos lembra que “o Cristianismo surge na Palestina, localizada no Oriente Médio, e se expande para a África e desta para a Europa, em períodos muito próximos, após o Pentecostes, através das jornadas missionárias de apóstolos e demais discípulos de Jesus Cristo”.
Botelho ressalta que a hegemonia europeia do Cristianismo começa a se alicerçar a partir do Édito de Milão: “Através dele, em 313 d.C., Constantino institui a tolerância religiosa, privilegiando os cristãos, o que beneficiou seu desejo de acabar com a tetrarquia, tornando-se o único imperador de Roma. Juliano, o Apóstata, em 361 d.C., reabre os antigos templos dos deuses do Politeísmo, mas essa ideia morre com ele, três anos depois. Em 379 d.C., ascende ao trono Teodósio I que, em 27 de fevereiro de 380 d.C., decreta o Cristianismo como a religião oficial de todo o Império Romano.”

O teólogo explica, ainda, que nesse processo dá-se o sincretismo: “Entre o final do século V a.C. e o início do III d.C. a divindade mais venerada, em todo território pan-mediterrâneo foi Asclépio, também chamado Esculápio, o ‘deus medicinal’ do panteão greco-romano. Edificaram-se inúmeros templos a ele em todo o Império, principalmente nas grandes cidades como Roma, Alexandria e Antioquia. O mesmo ocorria com Ísis, a deusa egípcia, que reinava soberana sobre todas as demais. Mãe carinhosa, protetora do seu filho, da própria maternidade e da procriação, da natureza e da educação de sua prole. Seu poder de assimilação era tão forte que, em uma transcrição da época, ela recebeu 320 predicados e, aos poucos, se tornou a única ‘rainha do céu’ para seus devotos”.

O mito da deusa Ísis e Hórus torna-se o da Virgem Maria e Jesus
Porém, já a partir do final do século II d.C. – diz Botelho –, com a expansão, o fortalecimento do Cristianismo e sua oficialização em todo o Império Romano, os templos dedicados a Asclépio começam a dar lugar a Jesus Cristo e os de Isis, à Virgem Maria. Os cristãos desse período fundem as divindades Asclépio/Jesus. Da mesma forma o culto egípcio a Ísis, com seu filho Hórus no colo, cede à veneração a Maria Santíssima”.

Escuras e muito amadas

Seja pelo sincretismo ou pelo poder que a fé tem de nos remeter ao transcendente, sem nos limitarmos ao aparente, as Madonas Negras foram conquistando os corações dos cristãos nas mais variadas nações. Hoje se sabe que essas são imagens remanescentes que sobreviveram a uma verdadeira cruzada empreendida por monges, durante a Idade Média, empenhados de pintá-las de branco ou até mesmo de dourado para apagar suas marcas originais.
A Virgem Negra de Oropa
Milhões de peregrinos visitam durante o ano todo um Santuário erguido nos Alpes Italianos, a 1.200 metros de atitude e a 100 quilômetros de Milão, para fazer suas orações à Virgem Negra de Oropa. Reza a tradição que essa estátua chegou à Itália no século VI, levada por Santo Eusébio, que a encontrou na Palestina. 

Madonna di Loreto
Também na Itália, multidões de fiéis romeiros vão à Basílica da Santa Casa, um dos principais locais de culto Mariano do mundo católico, na província de Ancona. É onde se encontra a imagem de outra virgem negra, a Madonna di Loreto, também chamada de Madonna dei Pellegrini (dos Peregrinos). A pele escura da imagem difere bastante da concepção do famoso quadro barroco do mestre Caravavaggio, no qual se vê uma típica italiana, descalça, com uma criança nua no colo, recebendo a visita de dois peregrinos.   
N. Sra. do Bom Parto
Só na França, o número das chamadas Vierges Noires ultrapassa a casa de 300. Dessas, porém, encontram-se intactas apenas algo em torno de 150. As demais foram pintadas, ou roubadas e vendidas a colecionadores, ou ainda destruídas por fanáticos. Uma das mais belas e conservadas imagens é a Nossa Senhora do Bom Parto, também chamada a Virgem Negra de Paris, venerada antiga igreja Saint-Etienne-des-Grès, na capital francesa. Há séculos, invoca-la durante a gestação é uma tradição entre as mulheres católicas, no mundo todo.
Santa Sara Kali
Várias lendas as associam essas Madonas a Maria Madalena. Contam que, 13 anos após a crucifixão de Cristo, Madalena teria chegado, juntamente com as Marias – a mãe de Jesus e a mãe João Batista –, a um pequeno porto, no sul da França, depois denominado Saintes Maries de la Mer. Vivendo reclusa por 30 anos, numa gruta de St. Baume, ela abrigava e curava doentes. Nessa região há a maior incidências de Madonas Negras. Todo ano, em Saintes Maries de la Mer, há uma gigantesca celebração, por ciganos peregrinos, em homenagem à santa Sara Kali, que muitos consideram uma Madona Negra.
N.Sra. de Rocamadour
Dentre as encontradas em território francês está Nossa Senhora de Rocamadour, a 250 quilômetros a leste de Bordeux, local de grande peregrinação mariana, onde há outras seis capelas medievais. Naquelas rochas, com 400 metros de altura, o ermitão São Amadour teria esculpido em madeira essa Madona Negra. Também no alto das rochas, em Le Puy-en-Velay, foi construída para outra Virgem Negra a Catedral de Notre Dame de Puy. 
No mesmo país há, entre outras, há a Nossa Senhora dos Anjos, em Boulogne-sur-mer, junto ao Canal da Mancha; a Nossa Senhora do Pilar, na Catedral de Chatres; a Nossa Senhora dos Milagres, em Orléans; e a Vierge Noire da cripta da abadia de Saint-Victor, o mártir, em Marselha. A Basílica de Notre-Dame de la Daurade, cujo nome se deve ao revestimento com mosaicos num fundo de folhas de ouro, é um antigo templo pagão e, posteriormente, um mosteiro beneditino. Ela também abriga uma Virgem Negra. O mesmo ocorre em Mende, uma comuna francesa, capital do departamento de Lozère e em mais de uma centena e meia de outras localidades francesas.

Devoção e contradição
N.Sra. de Montserrat, na Catalunha
Uma das Madonas Negras mais reverenciadas, mundialmente, é a Nossa Senhora de Montserrat, de Barcelona. Feita em madeira escura, está sentada ao trono com o filho no colo, com manto de ouro, túnica e o véu também dourados. Aos seus pés Santo Inácio de Loyola depôs sua espada e se prostrou. Ali traçou as linhas gerais de seus “Exercícios Espirituais”. Como ele, também lhe prestaram devoção, entre outros, São João de Matha, São José de Calasanz, São Vicente Ferrer, São Pedro Claver.
Segundo a tradição, essa imagem, então denominada Senhora Jerusalemitana, foi levada para a Península Ibérica pelo apóstolo Pedro, nos primórdios do Cristianismo. Em 546, um monge construiu, na Catalunha, um mosteiro rudimentar para abrigá-la. Durante todo o tempo da dominação moura, ela permaneceu escondida numa caverna, de onde foi resgatada por pastores, que a chamaram de Virgem Morena, ou “La Morenata”. O papa Leão XIII declarou-a padroeira da Catalunha. 
N. Sra. de Montserrat, em Salto do Itu
Imagens de Nossa Senhora de Montserrat foram trazidas para o Brasil, no século XVI. Ergueram-se capelas, na Península de Itapagipe, em Salvador, em São Sebastião do Rio de Janeiro, na vila de São Paulo de Piratininga, no local onde, anos depois, se ergueria o Mosteiro de São Bento. Também levaram imagens para Santos e para Salto do Itu. Dessas duas cidades, do litoral e do interior paulistas, essa Nossa Senhora foi declarada padroeira. Seu dia, 8 de setembro, é feriado municipal e bastante festejado.  O curioso é que, essas imagens são de uma rainha branca com seu filho loirinho. Por que será que no Brasil a representação da mesma virgem da Catalunha mudou de cor?

Marias negras nas Américas 

A Virgem da Candelária, da Colômbia 
Além da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, tão reverenciada, cuja “negritude” ainda hoje causa muita polêmica e explicações diversas, há outras virgens escuras no Continente Americano, cuja devoção foi trazida da Europa. A Colômbia, por exemplo, recebeu da Espanha a Virgem da Candelária. E a Costa Rica, Nuestra Señora de los Angeles, que os devotos, chamam “La Negrita” – dizem que é um forma de carinho – , cuja basílica, em Cartago, atrai peregrinos o ano todo.
O mesmo ocorre, na Cidade do México, com Nossa Senhora de Guadalupe, uma Virgem que não chega a ser negra, mas que também não é caucasiana. Tem traços indígenas, nos quais estudiosos encontram referências à deusa egípcia Ísis, levando a crer que teria sido uma das imagens que resultaram do sincretismo, nas primeiras décadas do Cristianismo.
A Madona Negra Czestochowa ou
a deusa Erzulie Dantor, do Haiti?
Colonos poloneses levaram a Madona Negra de Czestochowa, em pintura, para todos os países em que foram viver, entre eles o Haiti, onde o Vodu era a religião oficial dos habitantes negros. Estes a sincretizaram com sua deusa Erzulie Dantor. Quadro semelhante chegou ao estado norte-americano do Missouri, onde o missionário franciscano polonês Bronislau ergueu um santuário e construiu uma gruta em devoção a ela, no sudoeste de Eureka, em 1938. Por várias vezes o santuário foi vandalizado. Ao completar 20 anos, seu altar foi atacado por um incendiário e o fogo se alastrou para a igreja toda. A devoção, porém, fez com que fosse reconstruído e recebeu, em doação da Polônia, uma nova pintura da Madona Negra de Czestochowa.

Esteja onde estiver e tenha a cor que tiver, Maria sempre será a rainha dos cristãos, devotados ao Catolicismo, em especial os que professam o chamado Marianismo. Diante de suas imagens jamais lhes faltará a disposição de dobrar os joelhos para venerá-la com sua oração universal que, em latim, ganha ares das mais belas canções: "Ave Maria, gratia plena. Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus..."