segunda-feira, 7 de setembro de 2020

UM SONHO QUE O BRASIL SONHOU, MAS SE ESQUECEU

por Oswaldo Faustino

Em tempos de pesadelos, é sempre muito bom sonhar, novamente, nossos mais belos sonhos já sonhados



Era um sobradinho, numa rua da Moóca, bairro de classe média, na Zona Leste paulistana. Um sobrado desses que têm um portão baixo e uma pequena área de entrada, com a frente em forma de arco (como os da foto ao lado) e chega-se à porta, cerca de uns dois metros depois do portão. Porta aberta, de cara, se avistava à esquerda, na sala, um piano-armário de madeira escura. A vizinhança, na maioria de origem italiana ou nordestina, não fazia ideia de quem residia ali, mas certamente estava acostumada a ouvir a música que vinha daquela casa.

O morador era um homem negro de pouca conversa, que já havia ultrapassado os 50 anos, de cabelos escuros, à custa de pintura. Estranhamente, era sempre visto saindo, bem agasalhado, mesmo quando era Verão, todo início de noite e, muitas vezes, só voltava quando estava amanhecendo. Para onde será que ia aquele vizinho, que só o farmacêutico sabia chamar-se Alfredo? O nome encabeçava a receita com prescrição de medicamentos para problemas na próstata: Alfredo José da Silva Jr.

ano era por volta da segunda metade da década de 1980 e, toda noite, um táxi parava em frente ao portão para apanhá-lo. Sempre o mesmo táxi, que ele havia contratado e que o levava pela Radial Leste, 23 de Maio, Bernardino de Campos, 13 de Maio e São Carlos do Pinhal. Parava em frente ao suntuoso edifício do Maksoud Plaza Hotel, onde ninguém o conhecia como Alfredo. Lá ele era o Johnny, Johnny Alf. Um nome estrangeiro, sugerido por uma amiga americana, nos anos de 1940, ou 50.


"É só olhar, depois sorrir, depois gostar / você me olhou, você sorriu, me fez gostar..." (O que é amar?)


Johnny era o pianista residente da boate 150 Nigth Club, do Maksoud Plaza. Ali se apresentava sozinho ou num trio, revezando com outros grupos ou um artista solo, dependendo da época, e descansando na hora da apresentação do show principal da noite, na maioria das vezes uma estrela ou astro internacional. Os boêmios habitués da casa adoravam se sentir íntimos daquele pianista, cantor e compositor de renome, precursor da Bossa Nova. Todo frequentador do 150 Nigth Club tinha sua história preferida para contar e mostrar que era amigo de Johnny Alf.

“Nunca saí do Brasil”, dizia com certa mágoa, diante de olhares incrédulos. Como uma pessoa com aquele nível de erudição musical, com um talento único e uma musicalidade sem limites, jamais realizou uma turnê pela Europa, ou pela América do Norte, ou pelo Japão, onde a música popular brasileira, em especial o samba, encontra portas escancaradas? “Pois é, não fui nem a passeio”, concluía, antes de voltar a dedilhar as teclas do belo piano, no canto do pequeno palco.

As músicas por ele compostas têm alta influência harmônica e rítmica do jazz, o que ele atribui aos discos que ouvia, ainda menino, na casa da Tijuca, na Zona Norte de sua terra natal, o Rio de Janeiro, onde a mãe trabalhou de empregada doméstica, por décadas. Viúva de um cabo do Exército, desde que o pequeno Alfredo tinha três anos, ela residia no emprego e não tinha condições de pagar alguém para tomar conta do filho, nascido em 19 de maio de 1929. Os patrões da mãe, sensibilizados pelo interesse do garoto em adquirir conhecimentos e pela sua curiosidade musical, bancaram seus estudos no colégio Pedro II e, aos nove anos, contrataram a bastante conhecida professora Geni Borges para lhe dar aulas particulares de piano. pouco tempo depois, ele próprio ganhava algum dinheiro dando aulas de piano para outras crianças, com foco na música erudita.

Aos 14 anos, ele montou um trio que passou a se apresentar no Instituto Brasil- Estados Unidos, o que os levou a tocar em algumas rádios. Foi ali que ele se apaixonou pelo jazz e ingressou no Sinatra-Farney Fan Club, fundado em fevereiro de 1949, com sede na Rua Almirante Gomes Pereira, 54. Naquele espaço, tocando jazz, ficou popular, entre os jovens frequentadores.  


"Seu Chopin, não vá ficar zangado / e ressentido pela divertida união que fiz / de sua inspiração a três tempos / de um chorinho meu..." (Seu Chopin, desculpe) 


A música erudita perdeu um virtuose para a popular. Mas Alfredo não se sentiu atraído pelo samba das escolas de samba. Seu fascínio era as trilhas sonoras dos musicais hollywoodianos. Bach, Beethoven e Mozart foram nocauteados pelos irmãos Ira e George Gershwin e por Cole Porter. Também era covardia, pois estes compositores contaram com o reforço de Duke Ellington, Thelonious Monk, Oscar Peterson e mais um sem número de músicos do jazz que não economizavam improvisos e dissonâncias harmônicas. E foi essa dissonância o que mais impactou aqueles jovens músicos brancos da Zona Sul carioca dos anos 50, madrugada adentro, na Cantina do César, para a qual ele foi contratado por Dick Farney, outro gênio brasileiro do piano, da voz e do jazz. Depois, o seguiam pelas boates Monte Carlo, Mandarim, Clube da Chave, Drink, Plaza e o antológico Beco das Garrafas.

Eles se sentiam como que hipnotizados ouvindo aquele pianista negro que parecia ter um prazer à parte em desrespeitar, com os dedos e voz, sempre mais e mais, a matemática canônica musical. Ao deixarem as boates, os jovens músicos se enfurnavam no apartamento, ora de um, ora de outro, a tentar reproduzir as dissonâncias ouvidas, pouco antes, jurando que ali estava nascendo uma “bossa nova”.


"Olha, / somente um dia longe dos teu olhos / trouxe a saudade de um amor tão perto / e o mundo inteiro fez-se tão tristonho..." (Ilusão à toa) 

Tudo isso devia habitar a mente de Alfredo quando, em 1955, se mudou para São Paulo, contratado pela boate Baiuca e pelo bar Michel. Sete anos depois, a saudade da maresia e da noite carioca o levou de volta ao Rio, onde Johnny se apresentou em casas noturnas, como a Bottle's Bar, a Litlle Club e a Top.

Numa quarta-feira chuvosa, o dia 21 de novembro daquele mesmo 1962, os jovens músicos da Zona Sul, que o idolatravam, invadiram o Carnegie Hall, de Nova York, deixando igualmente hipnotizadas as três mil pessoas que lotavam a plateia e os camarotes, entre elas, alguns dos mais famosos nomes do jazz. No palco era enorme a lista dos músicos que se apresentaram, encabeçada por Antônio Carlos Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Chico Feitosa, Milton Banana, Agostinho dos Santos, Sérgio Ricardo, Normando Santos, Dom Um Romão e outros menos famosos. Há quem jure ter visto o nome de Johnny Alf no programa impresso. Se estava na lista, alguém se esqueceu de avisar o músico que Tom Jobim apelidou de “Genialf”. E ele permaneceu por aqui.


Com uma pontinha de tristeza, mas entre risadas, gostava de contar um episódio envolvendo um alto executivo de uma multinacional norte-americana, que, durante o período em que trabalhou no Brasil, ficou hospedado no Maksoud Plaza. Todas as noites ele descia à boate 150 Nigth Club e sentava-se a uma mesinha próxima do piano. Nos intervalos, gostava de conversar com Johnny Alf. Terminada sua missão por aqui, retornou aos EUA. Tempos depois, voltando ao Brasil, fez questão de rever o pianista e logo foi dizendo: “Johnny eu te vi em New York!” Surpreso, o músico indagou: “Eu!? Você sabe que nunca saí do Brasil...” E o outro explicou: “Eu passava por uma rua do Harlem, quando avistei uma placa, na porta de uma boate, dizendo: Tonigth the brazilian musician Johnny Alf! Desci correndo a escadaria para abraçar meu amigo e, ao chegar ao salão, havia um pianista negro tocando e cantando suas canções. E já fui perguntando: ‘Where's Johnny Alf?’. Ele respondeu: ‘I am Johnny Alf’. E eu retruquei: ‘No, no. I know Johnny Alf very well. We are friends and you are not him, no.". O músico afro-americano estava faturando, com a fama do compositor brasileiro.

"Tudo de graça a natureza dá / pra que que eu quero trabalhar?"  (Rapaz de bem)


Nunca ter saído do País, nem o terem incluído no seleto cast que apresentou a Bossa Nova aos americanos, no Carnegie Hall, de Nova York, em 1962, não eram a maior mágoa desse cantor, compositor e músico por excelência. Ele contava que esse título coube à desclassificação de sua balada romântica Eu e a Brisa, no III Festival da MPB, da TV Record, em 1967, apesar do belo arranjo do maestro José Briamonte e da interpretação impecável da cantora Márcia: "Ah, se a juventude, que essa brisa canta, / ficasse aqui comigo, mais um pouco, / eu poderia esquecer a dor / de ser tão só, pra ser um sonho…”.

"Ser tão só...", um compositor cujos 21 LP’s se espalharam mundo afora e com composições gravadas pelos e pelas melhores intérpretes da MPB e do jazz. Alfredo não parecia ter nenhum interesse ou vocação ao glamour e a tornar-se popstar. Assim, seus rendimentos foram precários e a solidão uma companheira eterna. Com o agravamento do câncer de próstata e sem parentes, foi viver, por três anos, numa “casa de repouso”, em Santo André. Sua despedida dos palcos e do público foi num show em agosto de 2009, com a cantora Alaíde Costa, famosa nos tempos da Bossa Nova. Johnny Alf faleceu, aos 80 anos, em março de 2010, num hospital público da cidade em que vivia.

Sim, uma coisa temos de admitir: ele conseguiu realizar seu desejo de "ser um sonho...", expresso na canção Eu e a Brisa.  Parafraseando a bela afirmação de Nelson Cavaquinho sobre Cartola, podemos também dizer que Johnny Alf “não existiu, foi um sonho”, que o Brasil sonhou... mas, infelizmente, se esqueceu. 













segunda-feira, 29 de junho de 2020

COMO ELE SE TORNOU UMA BOA COMPANHIA PARA SI PRÓPRIO?


Ele estava farto de si próprio. Farto de verdade...
nem se lembrava mais de quando foi a última vez
em que se olhou no espelho.
 


Era ainda jovem, bem jovem, mas vivia se indagando de como deveria fazer mal ao Narciso, permanecer ali, na beira daquele lago, dias infindáveis, olhando aquela figura que, por mais bonita que pudesse ser, provavelmente, o tempo teria revelado não ser totalmente bela, muito menos perfeita, como a princípio ele teria se imaginado.

Narciso, em infindável comtemplação
É impossível que o Narciso não tenha reparado naquela espinha na ponta do nariz, na falha entre aqueles dois dentes, nas olheiras provocadas por passar tantos dias ali, acordado, se admirando, sem sair da beirada daquele lago. 

Certamente, já havia ganho alguns quilos a mais, pela falta de exercícios, ou, quem sabe, até poderia ter se tornado esquelético, por não querer se afastar daquele local, para se alimentar.

A solidão espontânea, com certeza, deve ter lhe dado uma real valorização do outro, o que a autocontemplação obsessiva não lhe havia possibilitado ter. O outro, além de lhe servir como referência para as autoanálises, trazia uma vantagem que era a possibilidade de afastar-se, de nunca mais se encontrarem. De si, porém, isso era impossível.

Bertolt Brecht, explicando o afastamento, no teatro épico
Nem mesmo lhe era possível, assim como não foi para o mito Narciso, realizar um afastamento, como o existente entre o ator e o personagem e entre o espectador e a história narrada que, de uma forma mais real e autêntica, possibilita o surgimento de juízos de valor sobre o que, no palco, está sendo representado. Esta é a  proposta do teatro épico de Bertolt Brecht.
Separar-se de si mesmo?

Ele nasceu colado a si mesmo, como acontece nos raros casos de irmãos gêmeos siameses e, por mais desenvolvimentos que possam ter havido na Medicina, nenhuma cirurgia ou supostos avanços tecnológicos têm a capacidade de separá-lo de si. 

O que fazer para tornar, ao menos, suportável a companhia de si próprio? Como transformar aquela relação doentia, em algo agradável, palatável, enriquecedor?
Uma corda, um laço, uma solução?
Pensou que pensou, tremeu nas bases, chorou, riu da própria sorte, sentiu-se à beira da loucura. Apanhou uma corda, subiu num toco, amarrou a corda num galho de árvore, fez um laço corrediço e enfiou no pescoço pronto para saltar...

Não. Não pode ser um guarda. Anjos não envelhecem 
"Ei, o que você está fazendo aí, menino?" Aquela voz o assustou... seria, por ventura, a voz de seu anjo da guarda? 

Não. Aquela velhinha poderia até ser bondosa e repleta de vivências e de boas ações, mas não podia ser um anjo -- anjos não envelhecem --. Envergonhado foi como ele se sentiu, ao ser flagrado numa demonstração, tão evidente, de sua fragilidade, de sua nulidade.
"Ei!, o que você está fazendo aí,menino?"
."Sabe o que é, dona Cora? Acho que essa é a única maneira para eu me separar de mim". De repente, ela começou a sorrir. O sorriso, pouco a pouco, foi virando uma risadinha, que foi crescendo, crescendo, crescendo, até se tornar 
uma estrondosa gargalha. 
A atitude da velhinha o incomodou. Como alguém pode achar graça no desespero de quem está a um passo do suicídio?

Coralina -- era esse o segundo nome de dona Cora -- fez um esforço enorme para controlar a galhada, que voltou a ser uma risada, depois um sorriso e terminou num ar complacente. Então, indagou: "Desistiu?" 
Ele pensou que ela estivesse perguntando se havia desistido de suicidar-se... antes de ele responder, ela insistiu: "Desistiu de viver, de lutar, de buscar respostas para sua próprias angústias? Se desistiu, realmente, vá em frente, pois nada mais fará sentido".
Cora Coralina: uma ilusão coletiva?

Essa resposta foi um choque. Como essa senhora tão idosa estava dizendo a ele, no auge de sua juventude, que a única solução era mesmo acabar com a própria vida? "Quer saber de uma coisa -- pensou --não vou dar esse prazer a ela, nem a ninguém". Tirou o laço do pescoço e desceu do toco...

Cora Coralina segurou no braço dele, se amparando. Parecia muito cansada, mas
o convidou a caminharem juntos. Depois
de alguns passos, em silêncio, começou
a falar. Não para ele, mas para si própria:

"Desistir... eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça".

Até hoje, aquele velhinho passa horas...
Até hoje, aquele velhinho, passa horas, dias inteiros sentado num toco, fumando cachimbo, na porta de sua casa, repetindo para quem quiser ouvir o poema que ouviu dos lábios daquele anjo da guarda, que lhe apareceu na forma de uma simpática senhora idosa, baixinha, magrinha, frágil, mas uma rocha de sabedoria.
Um encontro inesquecível!... sempre sorri e fica refletindo a respeito: 

"Será que Cora Coralina existiu de verdade? Ou foi uma ilusão coletiva para a gente começar a suportar, com valentia e doçura, o peso de viver, se tornando a melhor companhia que podemos ser para nós mesmos?"

terça-feira, 26 de maio de 2020

Saiba mais sobre o Dia da África, comemorado em maio...


Esta matéria foi publicada na edição 167 da revista RAÇA, em 30 de outubro de 2016. Resolvi republica-la aqui, neste ano de 2020, pois a maioria do povo brasileiro ainda sabe pouquíssimo sobre nossa Mama África...






























Diga, rapidamente, o que se comemora no mês de maio. Certamente o Dia das Mães foi a primeira resposta que lhe veio à mente. Outros lembrarão o mês das noivas. Não é impossível que alguns tenham se lembrado da abolição da escravatura e alguém lhe dirá: “Mas esse não é para se comemorar, apenas para se refletir sobre o que foi a escravidão e as lacunas deixadas pela Lei Áurea”. Dificilmente ouviremos que no dia 25 se comemorou o Dia da África, de nossa Mãe África, do continente berço da humanidade.
Samora Machel, de Moçambique, ilustrava a matéria 
publicada na RAÇA, em 2016
Em maio de 2013 completaram-se 50 anos da conferência ocorrida em 1963, quando chefes de estado e diplomatas de 32 países africanos independentes se reuniram em Adis Abeba, capital da Etiópia, a convite do imperador daquele país, Haile Selassie, para traçarem uma estratégia visando uma unificação do Continente Africano. Esse encontro aconteceu de 22 a 25 de maio e se encerrou com a criação da Organização da Unidade Africana (OUA). Nove anos depois, em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o 25 de maio como Dia da Libertação Africana, ou o Dia da África.
Hailé Selassié , imperador da Etiópia ,
o Rás Tafari 

Quem ainda vê o Continente Africano com o mesmo olhar que lia os gibis e assistia aos filmes do Tarzan, do Fantasma, do Jim das Selvas e similares, não tem a menor ideia do porquê se comemorar o Dia da África. Nem entende os objetivos da OUA: promover a unidade e solidariedade entre os estados africanos; coordenar e intensificar a cooperação entre eles, para garantir uma vida melhor para os povos; defender a soberania, integridade territorial e independência desses estados; erradicar todas as formas de colonialismo; promover a cooperação internacional, respeitando a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos; e coordenar e harmonizar as políticas dos estados membros nas esferas política, diplomática, econômica, educacional, cultural, da saúde, bem estar, ciência, técnica e de defesa.
Jomo Kenyatta, 1o. Ministro
do Quênia 

Em seu discurso de 1963, Jomo Kenyatta – pai da independência do Quênia – afirmou que a África só seria livre de verdade no dia em que se realizasse uma reunião de cúpula da OUA, na África do Sul, então sob o cruel regime do apartheid. Quase 40 anos depois, em 2002, a Organização das Nações Unidas realizou na cidade de Durban, naquele país, uma nova reunião de cúpula com participação de representantes de 53 países africanos, ratificando e ampliando sua carta magna. Foi o último encontro da OUA e ali nasceu um novo organismo: a União Africana (UA). 

Dia da África serve para ajudar os afrodescendentes a refletir sobre o continente de origem de seus antepassados. Além de olhar para as civilizações que antecederam à Conferência de Berlim, que retalhou aquele continente com mais de 30 milhões de quilômetros quadrados e leiloou os pedaços entre potências europeias, temos de procurar conhecer a África de hoje. E olhar os africanos, que vêm viver em nosso País, como nossos irmãos e não com os preconceitos herdados do eurocentrismo.


Uma África que não é apenas fome, conflitos entre etnias ou entre nações, miséria, corrupção e AIDS, como a mídia insiste em veicular. Lá vivem mais de 1 bilhão de habitantes (menos apenas que a Ásia). Seu principal bloco econômico é a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), formada por 14 países, dentre os quais Angola e África do Sul.

Hoje ainda há muitas riquezas minerais a serem exploradas, principalmente petróleo. A palavra de ordem do continente, em especial na África do Sul, é o Black Economic Empowerment, o empoderamento dos povos africanos da riqueza de seus países, riquezas que ainda hoje estão nas mãos de empresas multinacionais, geralmente relacionadas com os antigos colonizadores.





segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Sonhos de um menino do Recife*




Por Oswaldo Faustino
“Sai de cima dessa pedra, moleque! Fica aí só olhando o mar!
Vem pra dentro cortar sola! Vem aprender o meu ofício!
Vem aprender trabalhar”...

Pois é, o sapateiro Manuel Abílio Trindade não entendia porque o pequeno Francisco Solano, seu filho, estava sempre olhando para o alto, sempre de frente para aquele marzão, imenso, sem fim. “Eta moleque que vive sonhando! Não quer mesmo botar os pés no chão!”.

Seu Manuel dança Pastoril e Bumba-meu-boi, sempre à noite, quando deixa seu trabalho na sapataria. Só depois vai pra casa beijar sua negra Emerenciana, quituteira de mão cheia, e atacar as surpresas deliciosas das panelas de ferro, sobre o fogão de lenha. Emerenciana não sabe ler, mas pede ao menino, que já aprendeu as primeiras letras, pra que leia pra ela os livrinhos de novelas e poesias de Cordel.
Essa história é uma história acontecida de verdade, num lugar chamado Recife, uma cidade bonita como ela só, no comecinho do século 20. Você conhece Recife? Fica lá no Pernambuco, no Nordeste desse Brasil. Conhece, não? Então tem de conhecer.
É cortada por dois rios: o Capibaribe e o Beberibe. O Capibaribe vem de lá da Serra do Jacarará, terra de capivara e porco do mato. Se arrasta pelo sertão, luta com a seca caminho afora, corta todo o Pernambuco, até ficar forte e generoso, trazendo peixe pra pescar e barcos repletos de carne de sol e farinha, só pra alimentar esse povo do Recife. O menino Francisco Solano sabe disso e ama o Capibaribe, rio valente, lutador, sobrevivente e vitorioso como ele.
O Beberibe não vem de longe, não. Esse vem de ali de perto. Ali de Camarigibe. É filho do Rio das Pacas que se casou com o Araçá. Rio malandro, vem gingando. Seus barcos trazem as meninas bonitas lá do alto, de Olinda. Oh, lindas meninas! Como não amar esse rio?
O que o resto do Brasil não sabe, mas sabe quem é do Recife, é que o Capibaribe se encontra com o Beberibe para formar o mar. Acredite se quiser são esses dois que inundam o oceano, esse mundo de água que separa as terras do Recife das terras do coração de Solano, as terras da África, que ele só conhece através das histórias contadas por sua avó.
“Menino, vem bater sola!”, berra o pai sapateiro, mandando martelo no couro, estendido na bigorna: Plá... Plá.. Plá... Mas o coração de Solano bate uma outra batida. A batida dos couros dos tambores do Maracatu: Tum tá - Tum tá - Tum tátátátá - Tum tá - Tum tá -  Tum tátátátá.... Tum tá - Tum tá - Tum tátátátá - Tum tá - Tum tá -  Tum tátátátá...
E seus olhos vislumbram o cortejo dos Reis e das Rainhas do Congo, gloriosos, dominando a cidade... lá vêm as porta-estandartes, empunhando os pavilhões. Olha lá, as Damas do Paço, com bonequinhas na mão. A boneca é a calunga, preta como Solano, girando, girando, girando... assim como gira o mundo.. assim como ele quer girar... Já entregaram os agrados pra Nossa Senhora do Rosário e pra São Benedito... agora é só festejar.
E cortejo segue em frente: “Olha o Rei! Olha a Rainha! É bonito como que! Lá vêm os caboclos lanceiros, guerreiros... prontos pra guerra, mas são de paz...” Maracatu das maracas, chocalhos que índio fez, dos ganzás, dos agogôs, das alfaias, tambores negros batendo.. agora é a nossa vez... olha as baianas rodando! Olha o baliza, que nas mãos gira um pau, que atira pro alto, bem alto! E pega e gira de novo, e de novo atira mais alto... “Vai cair! Vai cair! Vai cair!”... cai nada, que o moço é dos bons. Solano sabe que o povo nunca deixa a baliza cair...
“O que tu fica pensando aí no alto da pedra, Solano?”... o pai não entende os sonhos do filho. “Bota esse pé no chão, moleque!”
Pé no chão? Só se for pra dançar frevo... frevê, frevá... dançar até o sol raiar... atira o corpo prum lado, cruza as pernas e se atira pro outro... ergue a sombrinha e dança... “Param, param, param, parampam.. pam pam pam... Param, param, param, parampam.. pam pam Paaaaam...”
Para de olhar pro alto, menino! – agora é a mãe, Emerenciana – Vem tomar café. Vem comer dos meus quitutes! Olha aqui embaixo, um pouco que seja, menino!



Não. Solano não pode olhar pro chão. Quem olha pro chão anda de cabeça baixa. E ele jurou pra si mesmo que jamais abaixará a cabeça.   
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê         
“Olorum, o orixá que criou o mundo. Esse mundo grande, gigante, maior que esse oceano que separa o Brasil da África, que um dia eu hei de juntar de novo”... assim sonhava o menino. Menino Solano, menino pretinho, que desde pequeno descobriu que não quer viver no mangue, não quer caçar caranguejo, na lama, pra vender por uns trocados. E rejeitou as correntes da escravidão da miséria...

Muito tempo antes dessa história. Lá num país chamado Paraguai, teve um general chamado Francisco Solano Lòpes. Ele foi o primeiro presidente socialista da América Latina. O presidente do Paraguai, que o Brasil massacrou. Sob o comando de Caxias, um exército de escravos lutou contra o Paraguai, com a promessa de liberdade, depois da vitória. A vitória veio. A liberdade não. Seu Manuel Abílio nasceu muito depois dessa guerra. Mas é homem consciente e, por isso, batizou o filho com o nome de Francisco Solano, igualzinho ao socialista, que o Brasil massacrou.
Não por acaso o moleque, que um dia se encantou com os integralistas, pelo seu nacionalismo, se tornou, comunista, ou seria socialista? “Sei lá. Só sei que tem a ver com povo e povão é o que eu sou e sempre serei.” Dessa certeza, ele não tem a menor dúvida:
“Eu sou Solano. Solano da liberdade. E quando eu tiver um filho há de se chamar Liberto! Liberto Solano Trindade!”. 
Maria Margarida, sua amada, cristã luterana, terapeuta ocupacional e futura coreógrafa, descobre, com o tempo, que mesmo arrastando esse VENTO FORTE AFRICANO para os cultos, jamais o transformará em brisa. 
Da Bíblia vem o nome da filha Raquel, artista como o pai. Outra filha ganha o nome da desafiadora lady despojada de tudo -- inclusive das vestimentas -- em favor de seu povo, em tempos longínquos, na Inglaterra, Godiva. E aquele que receberá o honroso nome de Francisco Solano Trindade Filho, morrerá nos porões da ditadura militar.
Para Maria Margarida, melhor mesmo é seguir com essa ventania pelas experiências do Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos, e depois às reuniões com o intelectual Édson Carneiro, que gerarão o Teatro Popular Brasileiro e, com ele, teatralizar o bumba-meu-boi, os caboclinhos, o coco e a capoeira. E seguirem com o Brasilianas, grupo de dança que ele criará com Haroldo Costa, para percorrerem a Europa afora.
São esses os sonhos que brotam ali sobre a pedra em frente ao mar. Sonha. Sonha em voar como as gaivotas. Sonha em chegar do outro lado do oceano, por todas as terras de todos os povos, e, quem sabe, chegar às terras de seus ancestrais... negros como ele:

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio

e o desejo de libertação

Seus sentimentos e pensamentos se manifestam em poemas. Assim, seus sonhos se transformam em livros: 
Poemas negros (1936); Poemas d´uma vida simples (1944); Seis tempos de poesia (1958); e Cantares ao meu povo (1961). Outros póstumos virão. E Solano se torna "poeta do povo".

E sonhando com libertação, sonha em mudar pro Rio de Janeiro, pra Minas Gerais, pro Paraná, pra São Paulo, em fazer poemas, dançar as danças do povo, divulgar a cultura de seu povo, pintar quadros, escrever e dirigir peças de teatro, sonha que vai ser ator, vai fazer cinema – “Agulha no Palheiro” (1952), de Alex Viani; “Mistérios da Ilha de Vênus” (1960), de Douglas Fowley; “O Santo Milagroso” (1966), de Carlos Coimbra; e A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos. 
Vai passar pelo Teatro experimental do Negros, criado por Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos. Vai criar, com Haroldo Costa, o Teatro Popular Brasileiro e viajar mundo afora com o espetáculo "Brasilianas".  



Sonha em criar uma cidade toda voltada pras artes, onde as manifestações populares não sejam vistas como uma coisa exótica, folclórica, primitiva, mas como coisa do povo e da qual o povo poderá e deverá se beneficiar: 

Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos...
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes...
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais...
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos...
“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só...” Por isso o menino sonha que vai se juntar a outros sonhadores, como ele, para tornar seu sonho realidade. E vai plantar no coração de São Paulo, uma terra de artes e artistas. É quando conhece uma cidadezinha que já foi um aldeamento indígena, que se chamava Bohi, depois M'Boi, e por fim Embu... sim... e o povo vai praticar a arte de viver livre e criativamente... será a Embu das Artes...
Mesmo depois de Solano tomar o rumo das estrelas, suas sementes darão continuidade a essa missão... Raquel, a Kambinda, Liberto, Vitor, Zinho, Regina, Dadá e todos os demais que vierem, seguem semeando as sementes da Solanidade, perpetuando os Trindade...  
Aí, ninguém mais vai segurar os sonhos desse menino. Ele vai correr o Universo com seus poemas, suas pinturas, suas danças e seu teatro popular. Vai levando o trem da história, o menino maquinista, levando filhos e netos rumo a uma grande conquista. E o mundo todo há de conhecer esse trem...










Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome 
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu 
Não... ninguém há de calar essa voz nascida no Recife, em 1908. Essa voz que já passou muito tempo dos 100 anos. Que fará mais 100 e 100 mais... quantos 100 forem necessários para conquistar e enegrecer um a um todos os corações dos habitantes deste planeta. Até que se realizem todos os sonhos desse menino do Recife.
Três vivas para Solano Trindade! Viva! Viva! Viva!

Salve Solano Trindade! Salve a alma e o canto maior desse povo afro-brasileiro! Salve aquele que trazia nas veias o sonho de 

“PESQUISAR NA FONTE DE ORIGEM E DEVOLVER AO POVO EM FORMA DE ARTE "

Foi aí que Nei Lopes e Wilson Moreira transformaram o sonho de Solano Trindade num samba para o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, fundado em 1975, por Antonio Cadeia Filho. Samba que Roberto Ribeiro consagrou: 

*Texto solo criado especialmente para interpretação do grande ator João Acaiabe